EDGARD NASCENTES COELHO

Edgard Nascentes Coelho, nascido em 1853 na cidade do Rio de Janeiro, graduou-se em arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes. Ainda no Rio, ganhou impulso na carreira ao integrar a Comissão de Melhoramentos do Material do Exército e ao trabalhar na expansão da Estrada de Ferro Central do Brasil.
Aos 41 anos, em 1894, o arquiteto mudou-se para Belo Horizonte para compor a Comissão Construtiva da Nova Capital (CCNC). Como o principal desenhista da seção de arquitetura até 1897, Nascentes Coelho tornou-se o autor de diversos projetos arquitetônicos da capital mineira. Após o encerramento da CCNC, ele seguiu projetando diversas edificações em esfera pública e privada em Belo Horizonte, além de assumir o posto de desenhista da Secretaria de Agricultura em 1898.
Paralelamente à sua vida profissional, Edgard casou com Adélia Zoe Renault, com quem teve dez filhos, dos quais, Dario Renault Coelho, Victor Renault Coelho e Dorito Renault Coelho, inspirados pela profissão do pai, tornaram-se, também, importantes arquitetos da capital, com atuação destacada entre as décadas de 1910 e 1930.
Deixando como legado a autoria e colaboração de desenhos de edifícios belorizontinos entre o final do século XIX e início do século XX, faleceu, com 64 anos, na capital mineira em 1917.
Lista de projetos
1894:
Casa do guarda do Reservatório do Cruzeiro/Serra (desenho)
Desenhos do Palácio da Justiça
Fachada do hospital (projetado e não construído na rua Uberaba)
Restaurante do Parque Municipal (projeto não construído)
Igreja Matriz (projeto não construída)
1895:
Portaria do Cemitério do Bonfim
1896:
Estação da Estrada Central de Minas (demolida) - projeto de José Magalhães e desenhado por Edgard Nascentes Coelho

Figura 02 - Projeto da Estação da Estrada Central de Minas. Fonte: 100 anos de modernidade: Anuário de Belo Horizonte - Volume 6. Residência do Barão de São Geraldo (localização desconhecida)
1897:
Palacete do Secretário de Finanças (atual Arquivo Público Mineiro)
Grupo Escolar Afonso Pena
Grande Hotel de Belo Horizonte (demolido)
1898:
Residência de Irineu Ribeiro, na avenida João Pinheiro, área hoje ocupada pelo Ipsemg
Residência de Davi Rabelo, na avenida João Pinheiro, 510 (demolida).
Residência de Pedro da Nóbrega Sigaud, na rua Alagoas, 637 (demolida).
Propriedade de Henrique Diniz e de Henrique Augusto de Oliveira Diniz, respectivamente na Av. Álvares Cabral e Rua Timbiras (ambas demolidas)
Quartel do 1º Batalhão da Polícia Militar
Escola Normal (atual Instituto de Educação)
Ginásio Mineiro (demolido)
Residência na Av. João Pinheiro, esquina com a Praça da Liberdade (demolida)

Figura 03 - Projeto da Residência na Av. João Pinheiro, esquina com a Praça da Liberdade. Fonte: Dicionário Biográfico de Construtores e Artistas de Belo Horizonte 1894 - 1940. Quartel do Primeiro Batalhão Militar
1899:
Residência na Rua Timbiras, nº 1697 (atual EMEI Timbiras)
Chácara de Estevão Pinto
Residência do senador Benjamin de Lima (demolida)
Oficina de José Ávila Goulart
Palácio da Liberdade: Projetos da fachada, planta baixa, caixa d'água e casa do guarda.
Residência de Joaquim José Bastos: Na rua Rio Grande do Norte, 300 (demolida). Foi o primeiro Palácio da Cúria Metropolitana.
Residência de Carlos Honório Benedito Ottoni e Chalé (1901): Na rua da Bahia, 1.611 (demolidas)
Câmara dos Deputados de Minas (demolida)
Faculdade de Direito (demolida)
1900:
Igreja de Santa Efigênia
Santa Casa de Misericórdia (demolida)
Palácio da Exposição Permanente (projeto, não construído) – em coautoria com Maurício Bernasconi
Igreja Sagrado Coração de Jesus

Figura 04 - Projeto da Igreja Sagrado Coração de Jesus. Fonte: 100 anos de modernidade: Anuário de Belo Horizonte - Volume 6.
1901:
Igreja São José
1904:
Coreto (Pavilhão da Música) da Praça da Liberdade
Residência de Álvaro da Silveira na Rua Gonçalves Dias esquina com Av. Floriano Peixoto
1906:
Companhia Industrial de Belo Horizonte (futura 104 Tecidos)
Colégio Izabela Hendrix (demolido)
1907:
Casa na Av. Brasil, nº 1087
Indústria para a Companhia Industrial de Belo Horizonte na Praça da Estação/Praça Rui Barbosa
Mercado Municipal: Projeto de acréscimo e restaurante
Teatro Municipal (demolido)

Figura 05 - Projeto do Teatro Municipal. Fonte: 100 anos de modernidade: Anuário de Belo Horizonte.
1908:
Residência de Hemergildo Rodrigues de Barros: Na avenida Brasil, 2.079 (demolida)
Residência Dr. José Oswaldo Araújo (atual Escritório de Gustavo Penna)
1909:
Palacete Vivacqua (atual Museu da Cadeira Brasileira)
Clínica Cirúrgica (local n/c)
Pontes e Infraestrutura: Ponte no rio Chopotó
1910:
Pontes e Infraestrutura: Ponte no rio Jaguari e Preto
1911:
Caixa de areia da captação dos córregos Posse e Clemente: Desenho técnico
1912:
Antiga residência de Irineu Ribeiro, Avenida Álvares Cabral esquina com a Rua da Bahia (Demolida)

1913:
Villa Werneck de Celso Werneck
1914:
Capela Santa Cruz (1914): Na rua Maranhão
1916:
Infraestrutura: Canal da avenida da Estação em Ubá
PROJETOS ESCOLHIDOS
Residência de Álvaro da Silveira

A Residência de Álvaro da Silveira, aprovada em 2 de maio de 1904, representa um importante exemplo da arquitetura eclética presente nos primeiros anos de Belo Horizonte. Localizada na esquina das ruas Gonçalves Dias e Floriano Peixoto (atual Avenida Brasil), no bairro Funcionários, a residência integra o contexto urbano da nova capital mineira planejada no final do século XIX. O bairro Funcionários foi concebido para abrigar servidores da administração pública, refletindo os ideais republicanos de organização e modernização da cidade. Nesse contexto, a casa evidencia as transformações arquitetônicas e dos modos de morar que acompanhavam a consolidação da capital.

A linguagem arquitetônica da residência está diretamente vinculada ao ecletismo, movimento caracterizado pela combinação de referências históricas e ornamentais variadas. A composição da fachada apresenta uma organização em três módulos verticais, composta pelo embasamento, pelo corpo principal ornamentado e pelo coroamento marcado pela platibanda e pelo frontão central. A fachada é marcada por elementos decorativos inspirados na natureza, como folhas, vinhas e ornamentos vegetalistas nos capitéis e bandeiras das janelas, além de um frontão semicircular com uma concha central, recurso bastante utilizado na ornamentação eclética.

Outro aspecto importante é o uso da platibanda, que esconde o telhado e contribui para conferir uma aparência mais monumental e alinhada não apenas às tendências urbanas da época, mas também às preocupações urbanas e sanitárias da legislação, o Decreto nº 1.453 de 27 de março de 1901 determinava que os telhados fossem encobertos, nas frentes das vias públicas, por platibandas ou frontões artísticos e as águas pluviais dos telhados fossem conduzidas por baixo dos passeios até as sarjetas, evitando seu despejo direto sobre a via pública. O alpendre lateral merece destaque não apenas como elemento de transição entre a rua e o interior da casa, mas também por contribuir para o aumento da privacidade e da intimidade familiar, funcionando como uma separação gradual entre o espaço público urbano e o ambiente doméstico

A presença do porão elevado também é significativa. Embora não existam informações precisas sobre sua configuração interna, é provável que se tratasse de um porão alto, porém não habitável, utilizado possivelmente como depósito, edícula de apoio e/ou quarto de empregados. Além disso, o porão elevado ajudava a proteger a edificação da umidade do solo, favorecia a ventilação e conferia maior imponência à construção ao elevar o pavimento principal em relação à rua.
Embora a estética da casa estivesse associada à ideia de modernidade e sofisticação, isso não significava necessariamente o emprego de técnicas construtivas totalmente inovadoras. Ainda assim, é bastante provável que a residência tenha sido construída em alvenaria de tijolos cerâmicos, hipótese reforçada pela espessura das paredes observadas na planta. O uso do tijolo cerâmico representava uma técnica construtiva relativamente moderna para o período, especialmente no contexto da nova capital, onde materiais industrializados começavam a se difundir de forma mais ampla em substituição gradual às técnicas tradicionais anteriores.

A organização espacial da residência demonstra mudanças importantes em relação à arquitetura colonial brasileira. A presença do corredor evidencia uma mudança na circulação interna e na separação entre os ambientes, reduzindo a necessidade de atravessar sucessivamente os cômodos para acessar outros espaços da casa. Ainda assim, a planta mantém características de transição, já que alguns quartos continuam se conectando diretamente entre si. Essa configuração revela um momento intermediário entre o modelo colonial e as novas concepções burguesas de habitação do início do século XX.
A distribuição dos ambientes pode ser compreendida a partir da divisão entre setores sociais, íntimos e de serviços. O acesso principal ocorre pelo alpendre lateral, conduzindo ao vestíbulo, espaço distribuidor da residência. Próximos à entrada localizam-se os ambientes sociais, como a sala de visitas, destinada à recepção formal, e a sala de jantar, espaço central do cotidiano doméstico. Essa disposição demonstra a intenção de separar a vida familiar da rua e das visitas externas, reforçando a valorização da intimidade doméstica característica da sociedade burguesa urbana do início do século XX.
Os quartos localizam-se em áreas mais reservadas da casa e apresentam diferenças hierárquicas importantes. O quarto maior provavelmente pertencia ao patriarca da família. Já o quarto localizado mais próximo ao vestíbulo é possivelmente associado ao filho homem, enquanto o cômodo que se comunica diretamente com o quarto principal provavelmente correspondia ao quarto de uma filha, devido às relações de vigilância e proximidade familiar comuns à época. No entanto, também é possível que esse ambiente tenha funcionado como closet, escritório ou espaço de apoio privado.
A cozinha, despensa e banheiro localizam-se aos fundos da residência, constituindo o setor de serviços. A proximidade entre cozinha e banheiro revela limitações técnicas relacionadas à infraestrutura hidráulica do período, concentrando os pontos de água encanada e reduzindo custos e complexidade das instalações.
Assim, a Residência de Álvaro da Silveira sintetiza aspectos fundamentais da arquitetura residencial de Belo Horizonte do início do século XX. A obra articula referências ecléticas, novas soluções espaciais e preocupações funcionais ligadas à modernização urbana, ao mesmo tempo em que preserva elementos herdados das tradições construtivas anteriores. A casa revela, portanto, não apenas uma mudança estética, mas também transformações culturais e sociais nos modos de habitar da nova capital mineira.
Santuário São José

O Santuário São José, criado em 1900 originalmente como Paróquia São José pelo então arcebispo de Mariana Dom Silvério Gomes Pimenta teve sua pedra fundamental lançada em 1902 com sua construção se estendendo até 1910, contando ainda com mais dois anos para a finalização da pintura interna, entretanto já em 1904 a edificação passa a ser utilizada como Matriz para fins religiosos. Seu projeto arquitetônico foi executado pelo irmão leigo Gregório Mulders, pertencente à ordem que, a convite de Dom Silvério, ficaria responsável pela gestão pastoral e missionária da recém inaugurada capital mineira, os Redentoristas Missionários Holandeses que por consequência tomaram posse da paróquia, no ano de sua criação. Localizada entre as Rua Tamóios e Espírito Santo, com frente para a Avenida Afonso Pena, o templo católico originalmente se projetava como grande ponto de destaque em um cenário urbano belo-horizontino do início do século XX marcado pela horizontalidade e por largas avenidas ainda não densamente ocupadas.

A linguagem arquitetônica vista neste exemplar da obra de Edgard Coelho pode ser entendida como pertencente ao estilo Eclético, muito frequente naquele período histórico especialmente em Belo Horizonte, com forte influência neogótica e também “neomanuelina”, devido a sua fachada e interiores dotados de grandes estruturas ornamentais, graça às influências culturais artísticas e arquitetônicas de sua Ordem protetora o templo também apresenta semelhanças com edificações religiosas holandesas.



Com 60 metros de comprimento e 19 metros de largura, a igreja possui o formato “padrão” para grande parte dos templos católicos em de cruz latina, contudo este formato não foi originalmente proposto por Coelho, que desenhou uma forma retangular simples, sendo posteriormente modificada no projeto.
O coro, local muito visto em edificações desse tipo, aqui se posiciona sobre o nartex do Santuário, sua planta conta com outros elementos fundamentais para a tipologia dos edifícios religiosos católicos, como a presença de três naves, duas laterais e uma central mais larga, o altar-mor na cabeceira da nave principal, elemento fundamental na religiosidade e liturgia católica, portanto indispensável, além de duas sacristias paralelas. Há no templo também a presença de dois altares de adoração nas pontas do transepto, elemento que aqui não se manifesta muito significativamente como visto em outras edificações similares. O partido se articula a partir do fluxo dos frequentadores possuindo quatro entradas/saídas laterais além de duas na fachada frontal, paralelas à principal, cuja a escadaria evidencia.

Devido a seu valor histórico, cultural e religioso, em 1994 o Santuário assim como o conjunto arquitetônico e paisagístico que o cerca são tomados pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte .Com o passar dos anos a estrutura acabou sendo modificada, recebendo nova pintura externa e objetos que, em parte, a prejudicavam, como a instalação de concertinas e a construção de edifícios anexos entre a casa paroquial e a igreja, por esta razão em 2011 foi concebido um Plano Diretor para futuras adequações e intervenções. Em 2014 a igreja foi fechada à visitação para que fosse feito o restauro se sua pintura original, muito mais colorida em comparação a anterior, em 2015 o restauro é finalizado e o Santuário reaberto.


O terreno ocupado pode ser entendido como reflexo do que se pretendia com a instalação desta edificação religiosa no coração do centro da então mais moderna capital do Brasil. Contando com os anexos pré-existentes e os que mais tarde foram erguidos, a área ocupada diz respeito a uma quadra inteira, e se opõe a planta original de Aarão Reis que não previa uma igreja neste ponto e sim no final da Av Afonso Pena, na borda da cidade planejada. Se estruturando sobre uma colina, a edificação se utiliza da topografia para afirmar-se como um ponto referencial da malha urbana, se comunicando com a cidade de uma posição elevada. A imagem simbólica que se pode assimilar é de apartamento, separação, entre o sagrado e o mundano. A escadaria através da qual se acessa a Igreja, faz esse papel de “elevar” aqueles que se dirigem ao “espaço santo”.

Esse posicionamento urbano acaba entrando em conflito direto com o que se poderia, à primeira vista, esperar de uma cidade projetada e erguida sob ideais republicanos e para à época, modernos, dentre eles a separação entre Estado e Igreja. Essa presunção se mostra no mínimo equivocada, visto que estabelecendo-se no centro urbano da cidade o templo religioso acaba sendo munido de um significado muito mais amplo do ponto de vista social e urbanístico, o simbolismo da centralidade articulada ao redor dos templos religiosos dos períodos colonial e monárquico brasileiro, aqui é reinterpretado e inserido em um novo contexto paisagístico. Mesmo se diferenciando de séculos anteriores a mensagem passada é similar, de afirmar física e materialmente os valores partilhados comunitariamente por uma sociedade, sendo esta formada por sujeitos que carregam fortes crenças e modos de vida ainda ligados à fé católica, que historicamente se fez muito presente no território mineiro.

Conclui-se portanto que o Santuário São José representa um importante exemplar da obra de Edgard Nascentes Coelho, não apenas por sua estrutura física imponente, que não se diferencia do que até então se fazia como arquitetura religiosa no Brasil, mas principalmente pelo significado urbanístico que possui, se consagrando no imaginário dos conhecedores da capital mineira, nativos ou estrangeiros.
BIBLIOGRAFIA
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FABRIS, Annateresa. Arquitetura eclética no Brasil: o cenário da modernização. Anais do Museu Paulista, São Paulo, n. 1, p. 131–143, 1993.
Autores
Bernnardo Diogo Nunes Souza
Isabela Soares Silva Bital
Larissa Oliveira de Andrade
Maria Luiza Alves Costa




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