top of page

Eladio dieste

  • Foto do escritor: ACR 113
    ACR 113
  • há 5 dias
  • 9 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Eladio Dieste Saint Martín nasceu em 10 de dezembro de 1917, na cidade de Artigas, Uruguai, na fronteira com o Brasil. Oriundo de uma família com raízes em Rianjo, na Galiza (Espanha) cujos membros transitaram por cargos de prestígio no poder judiciário e nas forças armadas, Dieste cresceu em um ambiente de classe média profundamente intelectualizada e de forte inclinação humanista. Seu pai, também Eladio Dieste, era professor de história, e sua mãe, Elisa Saint Martin, lecionava francês. Seus tios paternos exerceram grande papel em sua formação: Eduardo e Rafael Dieste. A trajetória de Dieste também foi marcada por provações. O desabamento trágico na planta de Azucitrus em 1985, decorrente de um lote de cimento defeituoso fornecido pela estatal ANCAP, custou a vida de operários e marcou o engenheiro de forma indelével. Isentada de culpa pela justiça, a firma reconstruiu a obra, e Dieste reverteu toda a indenização financeira para o sustento das famílias dos operários falecidos.

Ao concluir o ciclo liceal em Salto (Uruguai), Dieste mudou-se para Montevidéu. Em 1936, ingressou na Facultad de Ingeniería da Universidade da República (UdelaR), graduando-se em engenharia civil em 1943. Dieste costumava enfatizar o momento extraordinário que a academia uruguaia vivia: o currículo era fortemente derivado do modelo politécnico francês, proporcionando uma formação rigorosa em matemática superior, resistência dos materiais e física teórica. Sob a influência de professores como Eduardo García de Zúñiga, Dieste internalizou a máxima de que "o teórico que falha na realidade falha porque não é teórico o suficiente", desenvolvendo uma paixão permanente por compreender a realidade através da linguagem físico-matemática.

Os anos de formação de Dieste coincidiram com o surgimento da chamada "Geração de 45". Embora o termo tenha sido cunhado para designar um grupo de escritores e críticos com forte senso de identidade intelectual, a engenharia e a arquitetura uruguaias também foram marcadas por essa leva de profissionais inovadores que transformaram a faculdade em um centro de excelência politécnica. Compartilhando o ambiente artístico de Montevidéu, Dieste tornou-se amigo próximo de Joaquín Torres García, o pintor que revolucionou a arte do continente com o Universalismo Construtivo. O pensamento de Torres García, focado na geometria, na razão e na submissão da forma a uma ordem cósmica, deixou marcas permanentes na futura obra de Dieste. Em 1944, além de iniciar sua carreira docente na UdelaR nas disciplinas de Mecânica e Grandes Estruturas, Dieste casou-se com a imigrante alemã Elisabeth Friedheim (Lisa), com quem constituiu uma numerosa família de doze filhos.

Logo após a formatura, Dieste assumiu o cargo de chefe da Oficina Técnico da Direção de Arquitetura do Ministério de Obras Públicas. O contato diário com arquitetos forçou-o a traduzir necessidades espaciais e a refinar o olhar sobre os aspectos formais da construção. Entre 1945 e 1948, trabalhou também na renomada firma dinamarquesa Christiani y Nielsen, onde desenvolveu suas primeiras coberturas e adquiriu profunda aversão pelas pesadas abóbadas convencionais de concreto armado, que exigiam fôrmas caras e demoradas.

Em 1947, o arquiteto catalão Antonio Bonet Castellana (discípulo de Le Corbusier e membro do Grupo Austral) convidou Dieste para colaborar no projeto estrutural da Casa Berlingieri, em Punta Ballena. Dieste sugeriu intuitivamente cobrir a residência com uma casca fina de tijolo. Ele desconhecia as tradicionais técnicas europeias de alvenaria abobadada (como as abóbadas tabicadas catalãs), o que ironicamente o libertou de amarras acadêmicas. Valendo-se do cálculo numérico e transpondo a lógica estrutural e as fôrmas deslizantes do concreto para a cerâmica, ele concebeu uma abóbada catenária com apenas 5,5 cm de espessura armada com fios de aço nas juntas. O sucesso da Casa Berlingieri tornou-se o embrião da Cerâmica Armada na América Latina, fundindo a leveza material do tijolo deitado à agilidade e precisão da engenharia moderna.

Após passar pela empresa Viermond S.A., Dieste fundou em 1954 a construtora Dieste y Montañez S.A. junto com seu colega de turma Eugenio Montañez. Enquanto Montañez geria com pragmatismo a viabilidade comercial e os canteiros, Dieste atuava como o idealista e a mente criativa por trás dos projetos, uma simbiose que permitiu a execução de mais de 1,5 milhão de metros quadrados de obras no Uruguai, no Brasil e na Argentina.

A empresa operava no modelo de concepção e construção (design and build), patenteando inovações que iam além das coberturas. Dieste desenhou equipamentos de protensão e fôrmas eletromecânicas acionadas por parafusos sem fim, além de revolucionar a engenharia de fundações para maquinários industriais pesados. Em vez de blocos maciços de concreto para conter a vibração de turbinas, ele utilizava estacas inclinadas (raked piles) dispostas nos cantos de uma laje fina de concreto, anulando os movimentos laterais e rotacionais por pura geometria.

O grande triunfo comercial de suas estruturas residia no custo reduzido: os tijolos eram materiais locais abundantes, e as fôrma

s deslizantes podiam ser retiradas em poucas horas, já que o tijolo poroso absorvia a água da argamassa, acelerando o ganho de resistência inicial. Para Dieste, a alma da empresa estava na sua "equipe de capitães", operários de origem rural a quem nutria profundo respeito ético: Vittorio Vergalito, o mestre de obras italiano que encarnava a filosofia de respeito à matéria; Edio Vito Pacheco, o líder expansivo capaz de traduzir a complexidade geométrica para os operários; e Alberto Hernandez, a força bruta com a delicadeza de "uma mão grossa que acaricia uma criança".

A prática profissional de Eladio Dieste era indissociável do conceito de "Economia Cósmica". Para ele, a verdadeira economia não era financeira, mas sim uma busca moral por estar em profunda harmonia com as leis naturais do universo, evitando o desperdício imotivado de matéria. Dieste acreditava que "resistir através da forma" era intelectualmente a atitude mais nobre e elegante do construtor.

Sob a ótica da crítica arquitetônica, sua obra alcança o ápice da expressão tectônica ao promover uma inversão estrutural intrigante: o tijolo, material historicamente associado a parede e ao esforço puramente estereotômico de compressão, passa a atuar como uma membrana têxtil, aérea e flexível, capaz de vencer vãos imensos. Essa ambiguidade desafia a percepção do observador, gerando uma poética rigorosa onde os ornamentos são suprimidos em prol da verdade da matéria e do caminho das forças. Para dar rigidez a superfícies tão delgadas e solucionar problemas complexos, ele desenvolveu métodos analíticos de aproximação sucessiva por meio da equação da energia elástica, calculando as primeiras tabelas estruturais nos computadores primitivos da faculdade na década de 1960.

Apesar de não possuir educação acadêmica em arquitetura, Dieste desenvolveu uma aguda e dolorosa consciência da forma. Ele entendia a forma como um linguagem de fraternidade humana no espaço, opondo-se ao hermetismo da arquitetura moderna high-tech (a "tecnolatria"). Em suas notas, Dieste critica duramente a falta de legibilidade das funções humanas nas obras modernas, comparando a experiência mística e física de subir nos campanários de Chartres, Estrasburgo ou nas torres de Gaudí com o vazio expressivo da haste que sustenta os sinos na Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer, onde o homem é impedido de interagir com a estrutura.

Nos seus projetos urbanos, como na Estação de Ônibus de Salto (1974), Dieste traduzia funções humanas em formas geométricas ao utilizar coberturas de seção constante para transmitir calma no espaço de espera e lajes em balanço de seção variável para conferir dinamismo às áreas de circulação. Defensor de que a arquitetura se define nos milímetros, ele sofria com falhas de execução de terceiros, como o reboco inadequado na Estação da Turlit (1980) que descaracterizou a esbeltez dos pilares e lhe causou uma dor quase física pelo rebaixamento da qualidade expressiva. Esse mesmo rigor moldou as suas grandes obras sacras e comerciais.

Na Igreja Cristo Obrero em Atlántida (1958-60), movido pelo propósito ético de levar a beleza às comunidades humildes, ergueu uma nave única envolta por paredes conoides e abóbada gaussiana, aplicando no nicho da capela lateral um truque óptico com tijolos de tamanhos progressivamente menores que aceleravam a fuga das juntas para criar uma ilusão de profundidade sagrada e indefinida. Já na reconstrução da nave da Igreja de San Pedro em Durazno (1969-71), preservou a fachada histórica, mas moldou o interior com planos dobrados de tijolos, destacando-se pelo presbitério de vinte metros que canaliza a luz sobre o altar e por uma monumental rosácea hexagonal suspensa por finas barras de aço tensionadas. Por fim, no Montevideo Shopping (1985), Dieste desafiou o padrão internacional de aço e vidro ao adotar a alvenaria armada em um centro comercial, onde uma abóbada gaussiana de curvatura acentuada na alameda central fazia a iluminação natural cascatear sobre o interior, enquanto a fachada externa em conoide invertido atuava como barreira estrutural contra os empuxos de terra.

Na década de 1990, debilitado por uma doença degenerativa, Dieste afastou-se dos canteiros, deixando a gestão da empresa com seu filho Eduardo e a direção técnica com Gonzalo Larrambebere. Despediu-se projetando uma série de igrejas na Espanha, como a de San Juan de Ávila em Alcalá de Henares, adaptando seus métodos à realidade europeia.

Eladio Dieste faleceu em Montevidéu no dia 29 de julho de 2000. Mais do que um criador de formas voluptuosas e dramáticas, ele deixou um legado ético e técnico imensurável. Sua obra provou que a verdadeira inteligência na engenharia e na arquitetura não reside na "descarnada eficácia financeira" ou no luxo tecnológico importado, mas sim na capacidade de extrair a máxima dignidade artística e utilitária a partir dos meios mais modestos e humanos.



PROJETOS


Lista de Projetos:

Obras em destaque no brasil

CEASA - Porto Alegre, RS (1971)



Contexto e Inovação Logística

Inserido em uma forte iniciativa governamental para modernizar e expandir o abastecimento agrícola no início da década de 1970, o complexo da CEASA em Porto Alegre tornou-se um marco da maturidade técnica de Eladio Dieste no Brasil. Atuando como projetista de estruturas em uma equipe interdisciplinar liderada pelos arquitetos Carlos Maximiliano Fayet e Cláudio Araújo, a contratação da firma uruguaia Dieste y Montañez S.A. envolveu um grande desafio inicial: a equipe teve que comprovar rigorosamente que o método construtivo em cerâmica armada seria financeiramente mais barato do que o concreto tradicional.  


Implantação e Malha Funcional

O complexo foi planejado a partir de uma malha funcional rígida, com os pavilhões implantados de forma paralela e serial em um terreno plano periférico. Essa disposição foi estrategicamente desenhada para facilitar o fluxo logístico e o dinamismo nas operações de carga e descarga de caminhões. Para além da eficiência do entreposto, as longas fachadas dos galpões receberam uma orientação solar cuidadosa, visando otimizar o controle térmico passivo e garantir a captação de iluminação natural superior.  



Tectônica e Rigidez Espacial

O grande destaque do complexo é o Pavilhão dos Produtores, que se consolida como uma das maiores e mais impressionantes superfícies cobertas da carreira de Dieste. Caracterizado por um comprimento linear contínuo e pela total ausência de barreiras visuais internas, o pavilhão utiliza módulos de abóbadas gaussianas de dupla curvatura para vencer um monumental vão livre de 30 metros de largura por 280 metros de comprimento.  

A geratriz longitudinal da cobertura adota uma curva catenária de compressão pura, enquanto sua seção transversal ondula-se ritmicamente. Essa variação formal confere a rigidez geométrica necessária para evitar o colapso por flambagem (buckling), permitindo que a estrutura mantenha uma espessura mínima de poucos centímetros, armada apenas nas juntas dos tijolos ocos. No canteiro de obras, a produtividade industrial foi alcançada através do uso de fôrmas móveis sobre trilhos, o que viabilizou desformas rápidas e sequenciais. Esteticamente, a face inferior das abóbadas foi mantida com o tijolo cerâmico à vista, criando uma textura contínua e calorosa que rebate e suaviza a luz natural, gerando um forte contraste tectônico com os suportes de concreto aparente.


  

Colaboradores: Eng. Eladio Dieste, Arq. Carlos Maximiliano Fayet, Arq. Claudio Araujo e Arq. Carlos Eduardo Comas.


CEASA — Maceió, AL (1971)



Contexto e Exportação Técnica

Construída no mesmo período, em 1971, a central de Maceió integrou a mesma política federal de modernização e interiorização da rede de Centrais de Abastecimento para o mercado nordestino. Diferente do projeto gaúcho, aqui o projeto e a execução estrutural ficaram integralmente sob a responsabilidade da construtora uruguaia Dieste y Montañez S.A. A obra respondeu com precisão a uma necessidade premente da região: a demanda por galpões comerciais amplos, duráveis e com excelente desempenho térmico que pudessem ser erguidos em curtíssimo espaço de tempo. Com isso, Maceió marcou definitivamente a consolidação e a exportação do sistema construtivo de Dieste para o mercado agroindustrial brasileiro. 


Lógica de Entreposto e Distribuição

A distribuição espacial seguiu a lógica serial e linear adaptada a terrenos planos periféricos, focando no dinamismo de manobra e no carregamento rápido de mercadorias hortifrutigranjeiras por grandes carretas. O complexo foi concebido a partir do conceito de planta livre total, gerando amplas plataformas cobertas de comercialização com acessibilidade por todos os lados. Os blocos funcionam como coberturas autônomas que tiram partido do espaço aberto para garantir ventilação natural constante, ideal para a preservação dos alimentos.  



Diferenciação Morfológica e Método Construtivo

Morfologicamente, o teto da CEASA de Maceió adota uma solução diferente e mais homogênea que a de Porto Alegre: em vez do ritmo plástico de ondas que sobem e descem, o teto desenha uma superfície cilíndrica lisa, uniforme e de seção transversal constante. Trata-se do sistema de cascas autoportantes, onde lâminas finas compostas por uma única camada de cerâmica funcionam longitudinalmente como grandes vigas.  

A cobertura vence um vão livre amplo de 26 metros, totalmente livre de pilares internos. A seção adota a geometria exata da diretriz catenária para eliminar os esforços permanentes de tração na alvenaria. Para resistir aos grandes balanços protetores e às cargas de vento, foram introduzidas finas armaduras de aço nos interstícios (juntas) dos tijolos. A execução industrial e veloz foi assegurada pelo método de fôrmas deslizantes — pequenos moldes modulares que se moviam progressivamente ao longo do eixo horizontal da cobertura. O acabamento em estado cru mantém a face inferior com o tijolo cerâmico aparente à vista, valorizando a cor natural do barro cozido em uma envoltória leve, limpa e contínua.  




Autor

Uriel Gonçalves


 
 
 

Comentários


© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page