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Ernest de Carvalho Mange

Foto do escritor: ACR 113
ACR 113
8 de jun.
15 min de leitura

Biografia

Figura 01: Ernest Mange. Fonte: Memória Itaúsa.
Figura 01: Ernest Mange. Fonte: Memória Itaúsa.

Ernest Robert de Carvalho Mange foi um engenheiro civil paulista nascido em 1922, formado na Escola Politécnica de São Paulo em 1945. Sua atuação profissional começou ainda como estudante, quando estagiou no Escritório Rino Levi em 1942, um o maior expoente do modernismo paulista após Warchavchik, cujas contribuições incluem: os projetos do Hospital Albert Einstein e do Edifício da FIESP, a fundação do Instituto Brasileiro de Arquitetos e participação da reestruturação da FAUUSP, ao lado de Vilanova Artigas. Em depoimentos, Mange explica que o trabalho de detalhamento técnico desenvolvido durante um ano letivo no Escritório Rino Levi foi essencial para sua formação. Posteriormente, Mange também estagiou  por sete meses no ATBAT - Ateuers Des Bâtisseurs, escritório de Le Corbusier na França, onde era responsável pelo detalhamento técnico das Unidades de Habitação projetadas pelo arquiteto francês no contexto da reconstrução da Europa pós-Guerra. Tais experiências explicam a inserção de Mange no movimento modernista brasileiro, defendendo os ideais funcionalistas, racionalistas e pragmáticos, ou seja, ausência de ornamentação em seus projetos, o uso de plantas livres modulares, fachada livre, janelas em fita, etc., em associação com o conforto ambiental e o bem-estar do usuário.


Ao longo de sua carreira profissional, Mange trabalhou em diversos escritórios com diferentes sócios. Entre 1945 e 1947 remete à criação de um escritório de engenharia em 1945, em parceria com Hélio Martins de Oliveira e Carlos Engel. Entre 1950 e 1955, por sua vez, Mange associa-se à Hélio Duarte, arquiteto carioca de grande influência na academia e na arquitetura escolar, revolucionando-a por meio das  "escolas-classe e escolas-parque").


Já para entender a inserção de Mange na construção de grandes usinas hidrelétricas é preciso entender o contexto nacional e mundial acerca desse tema. No período posterior à Segunda Guerra Mundial, a rápida industrialização e o intenso processo de urbanização ampliaram significativamente a demanda por energia elétrica. No Brasil, esse cenário evidenciou a insuficiência da infraestrutura energética existente, levando o Estado a assumir um papel central na expansão do setor. A partir dos anos 1950, em consonância com o projeto nacional-desenvolvimentista impulsionado por Getúlio Vargas, foram criadas empresas públicas de geração de energia e estabelecidas políticas voltadas à ampliação da capacidade instalada do país. Então, os arquitetos passaram a atuar de forma mais significativa no setor hidrelétrico, colaborando na concepção dos assentamentos vinculados às usinas e na articulação entre infraestrutura, habitação e planejamento territorial. A produção de Ernest Mange esteve associada ao desenvolvimento de projetos ligados à implantação de grandes complexos hidrelétricos, o que reflete um momento em que a arquitetura moderna brasileira expandiu seu campo de atuação para além dos edifícios isolados, contribuindo para a construção de infraestruturas estratégicas e para a organização dos territórios transformados pelos grandes empreendimentos energéticos.


Assim, suas principais áreas de atuação projetuais foram: arquitetura escolar - em parceria com o arquiteto Hélio Duarte - e projetos de infraestrutura de usinas hidrelétricas e núcleos habitacionais para seus operários - em colaboração com o arquiteto Ariaki Kato.


Mange também deixou diversas contribuições acadêmicas, incluindo artigos, participações em seminários e congressos, e publicações, como a tese “Contribuição para o ensino de arquitetura”, apresentada no IV Congresso Brasileiro de Arquitetos. Além disso, foi professor da FAU-USP, a convite de Hélio Duarte, entre 1948 e 1968 e docente da Escola Politécnica entre 1962 e 1968.


Lista de projetos


1947 – Sede do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1949 – Grupo Escolar Almirante Barroso, Jabaquara, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1950 – Estação Ferroviária da Pampulha (Concurso), Belo Horizonte, MG, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1950 – Paço Municipal de São Paulo (Concurso), São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1950 – Edifício Sotema (Concurso), São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1950 – Monumento a Rui Barbosa (Concurso), Rio de Janeiro, RJ, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1950 – Grupo Escolar Vila Clementina, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1951 – Escola Industrial de Piracicaba, Piracicaba, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – SENAI Escola Têxtil, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Escola de Aprendizado Industrial Anchieta, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Internato SENAI de Campinas, Campinas, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Escola SENAI de Jundiaí, Jundiaí, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Escola SENAI de Sorocaba, Sorocaba, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Escola SENAI de Taubaté, Taubaté, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Edifício-Sede do DER (Concurso), São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1952 – Edifício Indaiá, Santos, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1952 – Ginásio Escolar Gabriel Ortiz, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Ginásio Escolar Aristides de Castro, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Ginásio Escolar Pedro Voss, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Ginásio Escolar Otávio Mendes, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Parque Infantil Borba Gato, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1952 – Edifício Audax, São Vicente, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1954 – Edifício Presidente Roosevelt, Santos, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1956 – Edifício E1 da Escola de Engenharia de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Hélio Duarte, Ariaki Kato, Leó Quanji Nishikawa e equipe

1956 – Escola Industrial de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio Duarte

1956 – Plano do Campus da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Hélio Duarte e equipe

1957–1960 – Planejamento do Complexo Hidrelétrico de Urubupungá, Castilho, SP / Três Lagoas, MS, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1957–1960 – Vila Residencial de Jupiá, Castilho, SP / Três Lagoas, MS, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1958 – Usina Hidrelétrica de Limoeiro, Mococa, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1958 – Vila Residencial da Usina de Limoeiro, Mococa, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1963 – Estudos para a Cidade Universitária da USP, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e equipe

1963 – Edifício de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1964 – Edifícios da COSIPA, Cubatão, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1964 – Centro de Distribuição de Refeições da COSIPA, Cubatão, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1965 – Banco América do Sul S.A., São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange, Ariaki Kato e equipe

1979 – Projeto de Residência, local não identificado, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange

1995 – Instituto Cultural Itaú, São Paulo, SP, Brasil – Ernest Robert de Carvalho Mange e equipe


Projetos Escolhidos para análise


Edifício E1 da Escola de Engenharia de São Carlos (1956)


Figura 02: Edifício E1 da Escola de Engenharia de São Carlos. Fonte: EESC-USP.
Figura 02: Edifício E1 da Escola de Engenharia de São Carlos. Fonte: EESC-USP.

Ficha Técnica


Arquitetos: Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio de Queiroz Duarte

Localização: Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), São Carlos, SP, Brasil

Ano do projeto/obra: 1954–1957

Uso: Edifício institucional e educacional universitário

Programa principal: administração da escola, salas de aula, gabinetes, ateliês, sanitários, circulação vertical e espaços de apoio acadêmico


O Edifício E1 é um dos prédios institucionais que compõem a Área 1 do Campus da Universidade de São Paulo, localizado no bairro Parque Arnold Schimidt, na região centro-norte da cidade de São Carlos, SP, a cerca de 230km da capital. O projeto foi concebido por Ernest Mange com co-autoria de Hélio de Queiroz Duarte, intencionando abrigar todas as atividades da Escola de Engenharia da Universidade (EESC-USP), desde a administração às salas de aula. A equipe de projeto também contou com Ariaki Kato e Léo Quanji Nishikawa como estagiários e Eduardo Pessoa e Homero Lopes como Engenheiro Calculista e de Instalações, respectivamente, para uma obra que se iniciou em 1954, finalizou a metade leste em 1956 e a outra metade em 1957, tornando-se um marco na produção da Construção Civil.


Figura 03: Edifício E1 da Escola de Engenharia de São Carlos. Fonte: Prefeitura de São Carlos.
Figura 03: Edifício E1 da Escola de Engenharia de São Carlos. Fonte: Prefeitura de São Carlos.

A intenção inicial dos arquitetos responsáveis era de que um conjunto com três prédios idênticos fosse implementado dentro da ilha universitária, E1, E2 e E3. De acordo com o plano-piloto, unidades esportivas, residenciais e sociais eram previstas para a área, além dos três módulos. No entanto, apenas um deles foi de fato construído, revelando o que hoje se tem: pouco da concepção original para a ilha foi de fato atribuída a sua planta atual e o prédio de que se trata essa discussão é o remanescente.

 

Figura 04: Planta da Concepção original da Ilha com o Prédio E1 em destaque. Fonte: Revista Acrópole 249.
Figura 04: Planta da Concepção original da Ilha com o Prédio E1 em destaque. Fonte: Revista Acrópole 249.

O edifício E1 foi o único a ser construído, mas a ideia inicial era conceber um pequena cidade universitária que trazia os conceitos modernistas em sua concepção,como por exemplo a divisão em zoneamento. Nesse contexto, foram pensados inicialmente 3 setores diferentes: um primeiro para atividades de ensino, pesquisa e administração,um segundo setor para habitações para docentes e discentes e serviços de comércio para atender às necessidades diárias dos usuários e construir certa autonomia em relação à cidade e um terceiro setor que seria para equipamentos esportivos e centro acadêmico, essa zona também serviria como centro comunitário para promover uma integração entre cidade e universidade. O prédio foi implementado nesse terreno que, por sua vez, foi doado pela prefeitura municipal e foi é um símbolo forte dos conceitos Modernistas, com inovações, experimentações e tecnologias aplicadas do início ao fim do projeto para que a construção já simbolizasse o Polo de desenvolvimento e tecnologia das construções que ali seria abrigado, hoje abriga somente o setor administrativo do curso de Engenharia Civil da USP São Carlos.


Metodologia construtiva e inovações


Sendo assim, a metodologia construtiva tinha muito de novo para a época, através dele a equipe consolidou conceitos até então experimentais e não sistematizados do movimento moderno. Nasce, portanto, um dos primeiros edifícios de concreto aparente do país, de forma experimental, usando a coordenação modular e apresentando excelentes soluções de conforto lumínico e térmico. Os métodos construtivos mais impressionantes e revolucionários podem ser listados como:

 

  • Normalização da arquitetura

 

O prédio representa um movimento de racionalização e normalização da arquitetura. A construção racional representava a união entre os benefícios da industrialização dos elementos e a nova tecnologia de montagem na obra. Passando a pensar na indústria e como a concepção de um empreendimento em módulos padronizados poderia acelerar e organizar a implementação de um projeto. Para isso, os profissionais envolvidos reduziram as cotas do edifício e especialmente sua planta a módulos de 0,70m e seus múltiplos. Na planta, por exemplo, existiam 16 módulos de 0,70m entre cada pilar, totalizando uma distância de 11,20m, quatro esquadrias eram projetadas para esse intervalo, com a dimensão horizontal de 2,80m cada.

 

Partindo da ideia de modulação através dos quadrados de 0,7x0,7 m, o processo construtivo permitia a pré-fabricação das peças no canteiro de obras com o acréscimo do benefício da diminuição dos custos que esse processo acarretaria. No entanto, por se tratar da experimentação de uma novidade, a obra ficou cara a ponto de barrar a construção dos outros E’s.

 

A modulação, por ser coisa recente e de pouca amostra na época, levou a pequenos problemas de encontro que precisaram ser contornados durante a construção, como, por exemplo, o “resíduo” de cerca de 0,2m  entre a frequência da caixilharia e a junta de dilatação localizada no eixo de simetria do edifício, essa diferença foi uma das que precisaram ser contornadas posteriormente, com o andar da construção e, nesse caso, o 0,2m foi compensado por meio de um acréscimo nas esquadrias próximas à escada oeste. Essas particularidades se devem à pouca experiência com a técnica na época, que não sinalizava a previsão de juntas nas uniões dos componentes construtivos e variações das medidas dos elementos derivadas do próprio processo de fabricação.


Figura 05: Desencontro entre Caixilharia e Junta de Dilatação. Foto: Otávio Leonídio.
Figura 05: Desencontro entre Caixilharia e Junta de Dilatação. Foto: Otávio Leonídio.
  • Planta Livre e padronização rigorosa

 

A “padronização rigorosa” oriunda da previsão dos módulos era justificada por uma outra intenção de projeto: uso flexível dos espaços. A modulação acompanhava a ideia de planta livre nos pavimentos para que, a partir daí, seus usos fossem determinados e layouts e divisórias, por exemplo, fossem inseridas nos espaços demandados sem maiores problemas, estabelecendo um conceito de flexibilidade espacial.

 

  • Canaletas para Instalações Hidráulicas, Elétricas e soluções Pluviais

 

Justamente para viabilizar a flexibilidade espacial, os sistemas de água, luz e esgoto eram todos concentrados em uma canaleta vertical de onde seria possível extrair os pontos de utilização necessários a partir da demanda de utilização de cada andar e ainda facilitava a manutenção, que poderia ser feita através de portinholas embutidas nessas canaletas em cada um dos andares. Além disso, antes de chegar à canaleta, o sistema horizontal era embutido nas lajes (ao que se devia o seu formato piramidal).


Figura 06: Esquem de instalações. Fonte: Revista Acrópole 249.
Figura 06: Esquem de instalações. Fonte: Revista Acrópole 249.

Essa solução do duto visitável que corre junto ao eixo longitudinal do edifício e vertical através das canaletas visitáveis foi inspirado no Pavilhão Suiço de Le Corbusier (1930-32).

 

  • Esquadrias e seus Impactos nos Aspectos de Conforto Ambiental

 

Antes de qualquer modelo de esquadria, proteções ou climatizadores, a orientação do edifício e suas consequências foram estudadas para que, a partir disso, as tecnologias de conforto fossem projetadas. Levando em consideração a orientação, os dispositivos das esquadrias resolveriam todas as questões de iluminação, ventilação e insolação de uma só vez, com destaque para a ventilação.

 

Figura 07: Detalhe das esquadrias. Fonte: Revista Acrópole, 249.
Figura 07: Detalhe das esquadrias. Fonte: Revista Acrópole, 249.

As esquadrias alternavam faixas de vidro e placas de eternit, combinando elementos fixos e móveis que possibilitam regular a entrada de luz e a ventilação dos ambientes.


Figura 08: Faixa de Ventilação Baixa. Foto: Otávio Leonídio.
Figura 08: Faixa de Ventilação Baixa. Foto: Otávio Leonídio.

Complementarmente, na fachada norte, foram incorporados pequenos brises horizontais e verticais integrados à estrutura metálica, destinados a mitigar a insolação incidente durante o inverno e contribuir para o desempenho térmico.


Volume


A concepção estrutural do edifício baseou-se em uma estrutura composta por apenas dez apoios centrais a cada 16 módulos (11,20 m), associada a balanços de 4,55m, possibilitando a criação de grandes vãos livres e a continuidade espacial ao longo dos quase 100 m de extensão da edificação. Essa continuidade era interrompida apenas pelo núcleo de sanitários, pela escada central e pelo elevador, posicionados junto à face sul. Tal disposição permitiu a formação de uma circulação contínua que atuava como elemento de proteção solar para a fachada norte. Internamente, a organização dos espaços foi resolvida por meio de divisórias leves, padronizadas e removíveis, permitindo a adaptação dos ambientes a diferentes usos, como salas de aula, gabinetes e ateliês. Para consolidar a intenção de Planta Livre, até as escadarias, como mencionado, foram inseridas externamente, se transformando em parte característica do volume da edificação.

 

No mais, os materiais escolhidos para caracterizar as fachadas do edifício foram o concreto aparente, o vidro e as esquadrias metálicas.


Figura 09: Pavimento Térreo e Escadaria à Esquerda. Foto: Otávio Leonídio.
Figura 09: Pavimento Térreo e Escadaria à Esquerda. Foto: Otávio Leonídio.

Análise do corte


Com o corte fica evidente o deslocamento das escadarias e a tipificação das plantas, percebe-se também o núcleo vertical e longitudinal que atua estruturalmente e como abrigo das instalações, além de mostrar o pavimento térreo livre e as lajes de seção variada, por onde passavam todas as tubulações. Esse formato de laje acompanha o fluxo dos esforços que variam do apoio à extremidade do balanço, o que significa que o material se concentra onde exige mais demanda de resistência e diminui conforme também diminui a demanda. Essa característica resulta em eficiência estrutural com economia de material, possibilidade de grandes vãos, controle de deformações e diminuição do peso próprio da laje.


Figura 10: Corte esquemático. Fonte: Revista Acrópole, 249.
Figura 10: Corte esquemático. Fonte: Revista Acrópole, 249.

Análise da planta


Assim como já foi dito anteriormente, a intenção era que a planta fosse livre e se adaptasse à necessidade de cada setor que a ocupasse. Assim nasce o Andar Tipo do edifício com dez pilares que dividem o espaço em 8 módulos iguais, de 11,2m, módulo das escadas centrais e dois em balanço em cada extremidade. A planta sugere alguns usos em seu lado esquerdo, mas evidenciava, no lado direito, seu vão livre para adaptação.


Figura 11: Planta tipo. Fonte: Revista Acrópole, 249.
Figura 11: Planta tipo. Fonte: Revista Acrópole, 249.

SENAI Escola Têxtil (1952)


Figura 12: SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 12: SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.

Nome oficial: SENAI Francisco Matarazzo

Arquitetos: Ernest Robert de Carvalho Mange e Hélio de Queiroz Duarte

Localização: São Paulo, SP, Brasil

Ano da obra: 1952-1958

Uso: Edifício educacional para ensino técnico e profissionalizante da indústria têxtil

Programa principal: oficinas têxteis, salas de aula teóricas, laboratórios, administração, auditório, biblioteca, refeitório, áreas de recreação e instalações esportivas


Projetada por Ernest Mange em parceria com Hélio Duarte, a Escola Têxtil do SENAI foi concebida para atender à formação de aprendizes industriais, técnicos e engenheiros da área têxtil. Seu programa incluía oficinas didáticas, salas de aula teóricas, laboratórios, administração, auditório, áreas de recreação, refeitório e instalações esportivas. Mais do que responder a um programa complexo, o projeto buscava expressar arquitetonicamente uma nova concepção de ensino técnico, aproximando os espaços da teoria e da prática.


Análise da planta


A proposta foi organizada em três volumes principais. O primeiro, e mais importante, corresponde ao bloco das oficinas têxteis. Com seis pavimentos, esse volume concentra as atividades práticas da escola e constitui o elemento dominante da composição arquitetônica. Sua largura de aproximadamente 22 metros foi resolvida por meio de uma estrutura em pórticos com grandes balanços, solução que permitiu a criação de amplos espaços internos livres, adequados à instalação dos equipamentos industriais necessários ao ensino da tecelagem. A análise da planta evidencia a racionalidade dessa organização. Os ambientes destinados às oficinas ocupam grandes áreas contínuas, com poucas interferências estruturais, favorecendo a flexibilidade de uso e a adaptação dos espaços às necessidades específicas do ensino técnico.


Figura 13: Planta baixa SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 13: Planta baixa SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 14: Planta esquemática SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 14: Planta esquemática SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.

Um aspecto central do projeto é a preocupação com as condições ambientais. O volume principal foi concebido para receber iluminação bilateral e ventilação transversal, garantindo conforto aos ambientes de trabalho e ensino. Essa decisão pode ser percebida tanto na configuração da planta quanto nas fachadas, marcadas pela presença de extensos caixilhos de vidro. A entrada abundante de luz natural era particularmente importante para as atividades têxteis, que exigiam boas condições de visibilidade para a operação das máquinas.


O segundo volume funciona como elemento de apoio ao bloco principal. Nele foram concentrados elevadores, sanitários e algumas salas de tecnologia relacionadas diretamente às oficinas. Uma solução interessante adotada pelos arquitetos foi a disposição dos pavimentos desse bloco em níveis intermediários em relação ao pé-direito das oficinas. Essa estratégia permitiu alternar sanitários masculinos e femininos na mesma prumada, facilitando a circulação e reduzindo custos construtivos, sem comprometer o funcionamento da escola.


Figura 15: Planta pavimento tipo bloco principal e volume de apoio. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 15: Planta pavimento tipo bloco principal e volume de apoio. Fonte: Arquivo Arq.

O terceiro volume abriga os espaços mais associados ao ensino teórico e à administração, incluindo salas de aula, biblioteca, laboratórios leves e setores administrativos. Nessa parte do edifício, a modulação estrutural e o uso de divisórias internas garantem flexibilidade de organização. As salas podiam ser adaptadas de acordo com as mudanças das necessidades pedagógicas. No último pavimento, havia também um auditório com um formato distinto em relação ao restante da edificação.


Figura 16: Planta terceiro volume. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 16: Planta terceiro volume. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 17: Planta auditório. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 17: Planta auditório. Fonte: Arquivo Arq.

Análise do corte


Figura 18: Corte esquemático. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 18: Corte esquemático. Fonte: Arquivo Arq.

A análise do corte permite compreender a articulação entre esses diferentes setores. A verticalização do conjunto organiza os usos de maneira hierarquizada, enquanto a escada de ligação entre os blocos assume papel de destaque na composição arquitetônica. Mais do que um elemento funcional, ela atua como componente plástico do edifício, contribuindo para sua identidade visual.


Figura 19: Corte. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 19: Corte. Fonte: Arquivo Arq.

Outro aspecto importante é a valorização dos espaços livres. O térreo foi concebido de forma amplamente aberta, funcionando como área de recreação coberta e prolongamento das áreas verdes externas. Segundo os arquitetos, a obtenção da maior área livre possível foi um dos princípios fundamentais do partido arquitetônico. Essa decisão reforça a ideia da escola como espaço de convivência e formação, indo além da simples função de ensino.


Figura 20: Espaço externo livre SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 20: Espaço externo livre SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.

O auditório também recebeu tratamento especial no conjunto. Localizado sobre o volume principal das oficinas, ele aproveita a altura do edifício e a vista da cidade como parte da experiência espacial. Sua volumetria diferenciada é claramente destacada na composição geral, evidenciando sua importância dentro do programa.


Talvez o aspecto mais significativo do projeto seja a maneira como a arquitetura expressa a valorização do ensino técnico. Ernest Mange defendia que as oficinas não deveriam ficar escondidas nos fundos das escolas, mas ocupar posição de destaque. Na Escola Têxtil, essa ideia se materializa através dos grandes caixilhos de vidro que tornam visíveis as atividades realizadas internamente. As oficinas se transformam na vitrine da instituição, aproximando a escola da cidade e conferindo visibilidade ao trabalho dos estudantes. Dessa forma, a arquitetura deixa de ser apenas um suporte físico para o ensino e passa a atuar como instrumento pedagógico.


Figura 21: Escadaria SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.
Figura 21: Escadaria SENAI Escola Têxtil. Fonte: Arquivo Arq.

A Escola Têxtil do SENAI sintetiza, portanto, princípios importantes da arquitetura moderna brasileira, a racionalidade funcional, flexibilidade espacial, valorização da estrutura, integração entre forma e programa e preocupação com iluminação e ventilação naturais. Ao mesmo tempo, revela uma reflexão mais ampla sobre o papel da arquitetura na formação profissional e na valorização do trabalho técnico.


Referências


ARAÚJO, Cláudia Gomes de. Arquitetura e cidade na obra de Ernest de Carvalho Mange. 2004. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Carlos, 2004. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18131/tde-18082025-101343/. Acesso em: 31 maio 2026.


ARQUIVO ARQ. Ernest Mange. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://arquivo.arq.br/profissionais/ernest-mange. Acesso em: 31 maio 2026.


DIAS, Dora Souza. O ensino de Comunicação Visual nos anos 1960: a contribuição de Ernest Robert de Carvalho Mange. In: BRAGA, Marcos da Costa; DIAS, Dora Souza (org.). Histórias do design no Brasil II. São Paulo: Annablume, 2014. p. 35-58.


DUARTE, Hélio de Queiroz; MANGE, Ernest. Escola têxtil. Acrópole, São Paulo, n. 197, p. 53-60, 1955. Disponível em: https://www.acropole.fau.usp.br/edicao/197/53. Acesso em: 31 mai. 2026.


MANGE, Ernest. Ernest Mange. São Paulo: Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação do Estado de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: http://www.escoladeformacao.sp.gov.br/portais/portals/175/ernest%20mange.pdf. Acesso em: 28 mai. 2026.


NOBRE, Ana Luiza. Módulo só: o Edifício E1, em São Carlos, de Ernest Mange e Hélio Duarte. Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo, São Carlos, n. 5, p. 22–32, 2007. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1984-4506.v0i5p22-32.


SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2002.


Autoras


Geovana Maciel


Maria Clara Campos


Sofia Stacanelli.


 
 
 

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