top of page

spbr arquitetos

  • Foto do escritor: ACR 113
    ACR 113
  • 8 de jun.
  • 14 min de leitura

Figura 01: Atuais membros do escritório, em sentido horário: Angelo Bucci, Lucas Roca e Mateus Evangelista. Fonte: spbr arquitetos


o escritório

O spbr arquitetos, fundado em 2003 e sediado em São Paulo, desenvolve projetos que têm como principais eixos a concepção estrutural, as soluções construtivas e a viabilidade econômica, aspectos que orientam diretamente o desenho arquitetônico do escritório. Sua produção abrange principalmente residências unifamiliares e multifamiliares de alto padrão, além de projetos institucionais como escolas, museus, bibliotecas, sedes corporativas e centros culturais. A linguagem arquitetônica do escritório é marcada pelo rigor estrutural, pelo uso recorrente do concreto aparente, pela valorização dos grandes vãos , edificações suspensas por poucos pilares, integração entre ambientes internos e externos por meio de vidro e pela relação direta entre estrutura, técnica e espacialidade.

Os projetos desenvolvidos pelo escritório evidenciam soluções arquitetônicas pautadas pela integração entre técnica construtiva e organização espacial. Tanto em residências quanto em edifícios institucionais, o spbr arquitetura explora a adaptação às condições específicas do terreno e do programa arquitetônico, utilizando estruturas metálicas, grandes planos de vidro, brises e sistemas construtivos que reforçam uma linguagem minimalista, austera e funcional, sem abrir mão da clareza formal e da eficiência técnica. Tem linguagem arquitetônica associada com a Escola Paulista, de linguagem próxima ao brutalismo e com utilização de materiais industrializados por causa da relação de seu sócio fundador com o ensino e arquitetos da FAU-USP.


O escritório é dirigido pelo arquiteto Angelo Bucci, natural de Orlândia (SP), formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em 1987. Concluiu seu mestrado em 1989 e doutorado em 2005, também pela USP. Em 2011, tornou-se Honorary Fellow do American Institute of Architects. Desde 2001, atua como professor da FAU-USP e, ao longo da carreira, foi professor visitante em diversas instituições internacionais de ensino superior. Desde 2022, ocupa a cadeira de Professor of the Practice no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge. Antes da fundação do spbr arquitetura, foi sócio fundador do escritório MMBB Arquitetos entre 1996 e 2002, associado com Paulo Mendes da Rocha e por isso há grande conexão entre a produção do spbr, MMBB e UNA Arquitetos.


O escritório já contou com uma longa lista de sócios e colaboradores ao longo de sua existência, em geral, formados pela USP, onde Bucci leciona desde 2001, mas atualmente, a equipe do escritório conta com Lucas Roca (1990) e Mateus Evangelista (1998), ambos formados pela FAU-USP em períodos distintos. Lucas formou-se em 2016, e trabalha com coordenação e desenvolvimento de projetos arquitetônicos, enquanto Mateus, formado em 2023, desenvolve desenhos e projetos técnicos para o escritório.  Paralelamente à prática profissional, Angelo Bucci desenvolve intensa produção acadêmica e intelectual, publicando textos em periódicos e ministrando palestras, exposições e aulas. Parte desse acervo encontra-se disponível no site do spbr arquitetura, incluindo textos de crítica arquitetônica, história da arte, poesias e desenhos.


Projetos

2003 - Centro Cultural em São Lourenço da Serra, São Lourenço da Serra, SP - não executado 

2004 - 2008 - Casa em Carapicuíba, Carapicuíba, SP


Figura 02: Casa Carapicuíba. Fonte: ArchDaily


2004 - Sede da Orquestra Filarmônica Afro-Brasileira, São Paulo, SP - não executado

2005 - Colégio Marista, Barra da Tijuca, RJ - não executado 

2005 - Concurso Open House, Salvador, Bahia - não executado

2005 - Casa em Phoenix, Phoenix, Estados Unidos - não executado

2006 - Escola FDE Jardim Ataliba Leonel, São Paulo, SP


Figura 03: Escola FDE Jardim Ataliba. Fonte: spbr arquitetos


2006 - Museu de Arte de Lima (concurso), Lima, Peru - não executado

2006 - Midiateca PUC - Rio, Rio de Janeiro, RJ

2006 - Passarela de pedestres em Olten, Oltensteg, Suíça - não executado

2007 - 2008 - Casa em East Hampton, East Hampton, NY, Estados Unidos

2008 - Casa em Cotia, Cotia, SP - não executado 

2008 - Quartel do Glicério, São Paulo, SP - não executado 

2008 - Nova sede da CAF, Caracas, Venezuela - não executado 

2008 - Casa em Portland, Portland, OR, Estado Unidos - não executado 

2008 - Edifício de Apartamentos em Silves, Silves, Portugal


Figura 04: Edifício de apartamentos em Silves. Fonte: spbr arquitetos


2008 - Casa em Santa Tereza, Rio de Janeiro, RJ

2008 - Casa em Orlândia – Reforma, Orlândia, SP

2008 - Casa em Ubatuba, Ubatuba, SP

2009 - 2012 - Casa e salão de cabeleireiros em Orlândia, Orlândia, SP

2009 - Igreja da Natividade, Culiacan, México

2011 - Casa em Campinas, Campinas, SP

2011 - Jardim América, São Paulo, SP

2011 - Casa em Orlândia, Orlândia, SP

2011 - Instituto Moreira Salles, São Paulo, SP - não executado


Figura 05: Projeto não executado para o Instituto Moreira Salles. Fonte: spbr arquitetos


2011 - Edifício Sede Treetech Sistemas Digitais, Atibaia, SP

2012 - 2013 - Edifício de apartamentos em Lugano, Lugano, Suíça

2012 - Casa em Itaipava, Itaipava, RJ

2012 - Pavilhão administrativo em Santo Antônio dos Lopes, Santo Antônio dos Lopes, MA

2012-2013 - Vinícola em São José do Rio Preto, São José do Rio Preto, SP - não executado

2013 - 2014 - Casa de fim de semana em São Paulo, São Paulo, SP


Figura 06: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: spbr arquitetos


2013 - 2014 - Casa em Ubatuba II, Ubatuba, SP

2013 - 2014 - Casa em Santana do Parnaíba, Santana do Parnaíba, SP

2013 - Garagem em Murten, Murten, Suíça

2013 - Um novo MAM para São Paulo e o Parque do Ibirapuera no V Centenário, São Paulo, SP

2013 - Edifício de Apartamentos em Perdizes (Brisa), São Paulo, SP

2015 - Futura Unidade do IMPA (concurso), Rio de Janeiro, RJ

2015 - Arena Cultural do Hospital de Câncer de Barretos, Barretos, SP

2015 - Museu Bauhaus Dessau, Dessau, Alemanha


Figura 07: Museu Bauhaus Dessau. Fonte: spbr arquitetos


2015 - Residência de estudantes no Ourcq-Jaurès, Paris, França - não executado 

2016 - 2017 - Casa em Sagaponack, Sagaponack, NY, Estados Unidos - não executado

2016 - 2019 - Hospital de Urgência em São Bernardo do Campo, São Bernardo do Campo, SP

2017 - 2018 - Casa na Serra da Canastra, Passos, MG

2017 - 2019 - Edifício de apartamentos em Moema, retrofit (Nomad), São Paulo, SP

2018 - 2019 - Casa No Jardim Europa, São Paulo, SP

2020 - Edifício de Apartamentos em Curitiba, Curitiba, PR - não executado

2022 - Edifício de apartamentos na Vila Olímpia (Float), São Paulo, SP


Figura 08: Edifício de apartamentos na Vila Olímpia. Fonte: spbr arquitetos


lista de premiações


2022

Prêmio IAB-SP 2022 Categoria Edificações - Residencial e Habitação de Interesse Social: FIRST PRIZE

  • Apartment Building in Vila Olimpia (FLOAT)


2021

Prêmio Obra do Ano 2021: FIRST PRIZE

  • Emergency Hospital in São Bernardo do Campo


2020

Oscar Niemeyer Award for Latin-American Architecture (3rd Edition): SECOND PRIZE

  • Emergency Hospital in São Bernardo do Campo

Paulista Association of Art Critics' Award (APCA): Best Architecture Work

  • Emergency Hospital in São Bernardo do Campo

iF Design Award 2020: Category: Product

  • DocolPlay Shower Spout


2019

Americas Property Awards

  • Best Residential Vertical Building, Apartment building in Vila Olímpia (Float)

  • Best Residential Retrofit, Apartment building in Moema (Nomad)


2016

Mies Crown Hall America's Prize: FINALIST 2014-2015

  • Weekend House in São Paulo

  • XX Bienal Panamericana de Arquitectura de Quito Weekend House in São Paulo


2014

Arquitetura e Construção Magazine Award / The best of architecture: Category: Urban house - less than 300 m2

  • Weekend House in São Paulo

IX BIAU - Bienal Iberoamericana de Arquitectura y Urbanismo

  • Weekend House in Sao Paulo


2010

Arquitetura e Construção Magazine Award / The bestof architecture: Category: Beach house

  • House in Ubatuba, Ubatuba, SP


2009

  • International Young Generation

  • XII Architecture International Biennial of Buenos Aires


2008

Arquitetura e Construção Magazine Award / The best of architecture: Category: Urban house

  • House in Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ

LafargeHolcim Awards for Sustainable Construction - Latin America: SECOND PRIZE

  • Media Library for PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ


2007

VIl Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo: HONORABLE MENTION

  • House in Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ


2006

FIRST PRIZE

  • Competition for the Media Library for PUC - Rio


2004

III CAUÊ Prize

  • House in Carapicuíba



Projetos Escolhidos para análise


Figura 09: Casa Ubatuba. Fonte: spbr arquitetos


  • CASA UBATUBA (2005 - 2008)


Projeto: Casa Ubatuba

Escritório: SPBR Arquitetos

Arquiteto responsável: Angelo Bucci

Localização: Praia do Tenório, Ubatuba, SP, Brasil

Ano do projeto: 2005–2006

Ano da obra: 2007–2008

Área do terreno: 887,50 m²

Área construída: 346,20 m²

Uso: Residência unifamiliar / casa de praia

Programa principal: garagem, piscina, solário, áreas sociais, áreas íntimas, espaço gourmet, academia e áreas de apoio

Estrutura: concreto armado aparente

Principais materiais: concreto, vidro, aço, madeira e elementos metálicos

Paisagismo: Raul Pereira


A Casa Ubatuba, situada na praia Tenório, foi desenvolvida em um terreno pé na areia de 55m x 16m, com declividade de 50% e cercado por vegetação natural da Mata Atlântica. Foi projetada para uma família, sendo que o casal moraria lá permanentemente enquanto os filhos visitariam como casa de férias. Esses fatores guiaram as soluções de projeto da edificação, propondo blocos internos de privacidade, conceito aberto para valorizar e aproveitar a vegetação e a vista, ao mesmo tempo que a protege, e um modelo diferente de “cabeça para baixo”.


Figura 10: Casa Ubatuba vista da praia. Fonte: Nelson Kon


A busca pela preservação da vegetação natural, além de seguir um padrão do escritório, fez com que os arquitetos projetassem tocar  o solo o mínimo possível. Sendo assim, a residência é sustentada apenas por três colunas de concreto reforçadas. 


Figura 11: Casa Ubatuba. Fonte: Nelson Kon


Figura 12: Implantação com os três pilares em evidência. Fonte: spbr arquitetos


A proposta inicial foi instalar um par de vigas longitudinais de aço sobre as colunas, para sustentar as lajes por cima, evitando o uso de estruturas de suporte e andaimes, tornando a obra mais rápida e racional. Durante a fase do projeto, o custo estimado das vigas superou o orçamento, levando a uma segunda proposta: alterar a ordem do processo, considerando toda a estrutura de concreto armado. Sendo assim, em vez de concretar a laje de cima para baixo, a concretagem foi feita de baixo para cima. Assim, os pórticos de apoio de toda a estrutura foram removidos de uma só vez. 

O esquema construtivo permite certa liberdade de geometria das lajes e arranjo em níveis, possibilitando vistas para o mar de todos os cômodos da casa. O principal acesso da casa é feito de “cabeça para baixo”, ou seja, de forma invertida da organização tradicional: O acesso se dá pelo terraço, a área social abaixo dele e, em um nível mais baixo, a área íntima da casa. O terraço com a piscina e acessos para a casa está ao nível da rua e conectado a ela e a garagem por uma ponte descoberta. 


Figura 13: Corte longitudinal. Fonte: spbr arquitetos


Figura 14: Terraço da casa Ubatuba. Fonte: Nelson Kon


A piscina foi posicionada no nível superior, do terraço, em cima de um dos três pilares devido à melhor insolação e à sua atuação como isolante térmico junto de espelhos d’água, que favorecem  a integração do edifício à paisagem.


Figura 15: Planta do andar de acesso - Terraço. Fonte: spbr arquitetos


No andar social, um abaixo do acesso, a casa já começa a se organizar em 4 blocos diferentes. O primeiro, mais à esquerda logo abaixo da garagem é separado do edifício principal e tem acesso próprio e isolado possui dois banheiros então aparenta ser ou uma academia ou somente um vestiário para quem usa a piscina.

O segundo bloco tem uma área gourmet, e o terceiro tem cozinha, sala de jantar e de tv, enquanto no quarto bloco, mais perto da praia, tem uma varanda coberta.


Figura 16: Planta do andar social (-1). Fonte: spbr arquitetos


Figura 17: Terraço com piscina e logo abaixo vista do segundo bloco, com a área gourmet. Fonte: spbr arquitetos


Figura 18: Varanda com vista para a praia no andar social, parcialmente coberta pela laje. Fonte: spbr arquitetos


Já no andar íntimo, o segundo abaixo do acesso, a divisão dos blocos fica ainda mais clara, limitando o acesso entre eles principalmente para favorecer a privacidade do casal, já que a casa foi projetada para o uso cotidiano deles, e para uso como casa de férias para os filhos. Assim, os quartos estão inseridos em dois blocos completamente separados que não se comunicam entre si. (O bloco da direita é do casal, o do meio para os filhos, e o da esquerda tem um “mini apartamento” completo, então deve ser aposento para hóspedes ou empregada. Com essa compartimentação dos blocos, o acesso para a praia fica restrito aos blocos dos filhos e o de empregado por meio da escada em espiral.


Figura 19: Planta do andar íntimo (-2). Fonte: spbr arquitetos



O quarto localizado no extremo leste (do casal), mais próximo do mar, foi protegido com uma veneziana móvel de madeira. O outro grupo, de três quartos (para os filhos), está situado atrás deste, mas com desnível de um metro e meio para baixo, também possibilitando a vista para o mar. 


Figura 20: Vista do quarto do casal sem a veneziana. Fonte: spbr arquitetos


Figura 21: Detalhe das venezianas do bloco da varanda e do quarto casal. Fonte: spbr arquitetos


Figura 22: Escada helicoidal que conecta os blocos da esquerda e desce para o solo. Fonte: spbr arquitetos


O projeto da casa, além de buscar preservar a paisagem em que está inserida, cria a sensação de que os ambientes estão flutuando no espaço entre as árvores e de cada um deles à vista se abre para a paisagem. É possível perceber por meio das fotos como os materiais contribuem para essa sensação e também as áreas de circulação, que são todas externas aos blocos, criando um projeto único e cheio de significado. 


Figura 23: Circulações externas. Fonte: spbr arquitetos


Figura 24: Vista da Casa Ubatuba inserida na paisagem. Fonte: spbr arquitetos


  • CASA DE FIM DE SEMANA EM SÃO PAULO (2010 - 2014)


Figura 25: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: ArchDaily


Projeto: Casa de Fim de Semana em São Paulo

Escritório: SPBR Arquitetos

Arquiteto responsável: Angelo Bucci

Localização: São Paulo, SP, Brasil

Ano do projeto: 2013–2014

Área do terreno: 269,5 m²

Área construída: 183,4 m²

Uso: Residência de lazer / casa de fim de semana

Programa principal: jardim, piscina, solário, quarto, áreas de apoio e apartamento do caseiro

Estrutura: concreto armado aparente

Principais materiais: concreto, vidro, aço e elementos metálicos

Paisagismo: Raul Pereira


A Casa de Fim de Semana em São Paulo, projetada pelo SPBR Arquitetos, parte de um programa pouco usual: criar uma residência de lazer dentro da própria capital paulista. O projeto foi concluído em 2013, tem cerca de 183 m² de área construída em um terreno de aproximadamente 269 m², e foi desenvolvido a partir da decisão dos proprietários de permanecer na cidade aos fins de semana, evitando os deslocamentos para o litoral e o trânsito associado a esse movimento. 


Figura 26: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: Nelson Kon


Esse dado inicial é importante porque define o partido. Em vez de pensar a casa de fim de semana como equipamento de evasão territorial, o projeto a formula como uma alternativa de uso da própria metrópole. A implantação em área central, entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima e o eixo de infraestrutura do Rio Pinheiros, além da presença da rota aérea sobre o lote, mostra que o projeto não tenta se afastar das condições urbanas, ele opera a partir delas.

A organização programática confirma essa mudança de lógica. Segundo a descrição do projeto, os elementos principais são piscina, solário e jardim; os ambientes fechados aparecem como complementares, reunindo um quarto, um pequeno apartamento para o caseiro e um espaço para cozinhar e receber amigos. Em termos de análise, isso significa que a casa desloca a hierarquia tradicional da residência urbana: o morar fechado deixa de ser o centro absoluto, e o lazer ao ar livre passa a estruturar a composição. 

A casa se organiza verticalmente em três níveis principais, cada um com uma função específica dentro do programa. Essa divisão reforça a ideia de que o projeto não se estrutura como uma residência convencional, mas como uma sobreposição de áreas abertas, espaços de apoio e lazer.

No nível térreo, o solo é mantido majoritariamente livre para abrigar o jardim e as áreas externas. Esse pavimento funciona como uma base aberta da casa, com presença de áreas verdes, água e circulação. A liberação do térreo permite ampliar a área ajardinada do lote e cria uma primeira camada de contato com o solo, mais sombreada e protegida pelo volume superior.


Figura 27: Planta dos níveis 0 e +1,40. Fonte: ArchDaily


O nível intermediário concentra os ambientes fechados do programa. Nele estão localizados o quarto, os espaços de apoio e o “apartamento” do caseiro. Esse pavimento funciona como uma faixa habitável suspensa, posicionada entre o jardim e a cobertura. A organização alongada acompanha o formato estreito do terreno e distribui os ambientes de forma linear.


Figura 28: Planta do nível +2,80. Fonte: ArchDaily


Na cobertura, estão a piscina de raia e o solário, que constituem os principais espaços de uso da casa. A decisão de levar a piscina para o nível superior responde à necessidade de garantir maior insolação, já que o entorno construído poderia sombrear o térreo. Assim, a cobertura passa a funcionar como uma espécie de novo térreo elevado, destinado à permanência, ao lazer e à relação com a paisagem urbana.


Figura 29: Planta dos níveis +5,60 e +6,475 (solário e piscina). Fonte: ArchDaily


O acesso entre os níveis acontece por meio de escadas e passarelas que conectam as diferentes camadas do projeto. A circulação não é apenas funcional: ela organiza a experiência da casa, conduzindo o usuário do jardim térreo aos espaços fechados intermediários e, depois, ao plano superior da piscina. Dessa forma, o percurso vertical evidencia a lógica do projeto: sair do nível mais protegido e ajardinado, passar pelo pavimento habitável e chegar ao ponto mais aberto, iluminado e exposto da casa.


Figura 30: Casa de fim de semana em São Paulo, circulação externa. Fonte: Nelson Kon


A questão da legislação urbana tem papel decisivo nessa definição espacial. Como a altura máxima permitida na região era de seis metros, o projeto transforma esse limite em critério de organização: o plano situado nessa cota passa a ser tratado como um novo nível principal, já que recebe melhor insolação. A solução não decorre apenas de uma escolha formal, mas de uma leitura das restrições do lote e da necessidade de garantir uso efetivo dos espaços abertos.

A piscina elevada é central nessa operação. A hipótese inicial de uma piscina térrea foi abandonada porque as construções vizinhas limitavam a incidência solar. Ao suspendê-la, o projeto resolve a questão da insolação e, ao mesmo tempo, libera o solo para o jardim. A cobertura deixa então de ser apenas fechamento superior da casa e passa a concentrar o principal espaço de permanência.


Figura 31: Corte longitudinal. Fonte: ArchDaily


Figura 32: Vista do nível superior. Fonte: Nelson Kon


Do ponto de vista estrutural, o projeto organiza piscina e solário como volumes paralelos. Entre eles, dois pilares são posicionados no vão intermediário, e a piscina funciona como contrapeso do solário. A casa apresenta um vão de 12 metros entre os apoios principais, com vigas que suportam tanto a piscina quanto o solário e ainda penduram o piso inferior. A estrutura, portanto, não aparece apenas como solução técnica, mas como instrumento que torna viável a inversão programática proposta pelo projeto.


Figura 33: Corte transversal da casa. Fonte: ArchDaily


A liberação do térreo é outro aspecto relevante. Ao manter o nível do solo sem construção, o projeto maximiza a área ajardinada e organiza a casa em três camadas: jardim no térreo, apartamento no nível intermediário e piscina na cobertura. Essa estratificação produz uma separação funcional clara entre apoio, habitação e lazer, além de estabelecer diferentes relações com luz, ventilação e vistas. 


Figura 34: Corte longitudinal com destaque para as piscinas e espelhos d'água. Fonte: ArchDaily


Existe também uma leitura urbana importante na maneira como o projeto se relaciona com o entorno. A piscina de raia, com 17 metros, é orientada no sentido da rota dos aviões que sobrevoam a área. Isso mostra que a cobertura não é pensada como espaço isolado da cidade, mas como ponto de observação inserido na paisagem metropolitana, em contato com infraestrutura, fluxos e ruídos urbanos.

O paisagismo, assinado por Raul Pereira, contribui para ampliar essa organização em níveis. A casa possui um circuito de águas interligado pelos andares e a presença de três extratos vegetais: no térreo, um sub-bosque de Mata Atlântica; em outro nível, horta e trepadeiras; na cobertura, palmeiras e vegetação associada à abertura visual da paisagem urbana. Assim, o jardim não funciona como preenchimento residual, mas como componente espacial articulado à distribuição vertical da casa.


Figura 35: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: ArchDaily


Materialmente, o projeto trabalha com concreto, aço, vidro e elementos metálicos nas escadas, passarelas e guarda-corpos. Esses materiais aparecem vinculados à clareza construtiva da obra e ao modo como ela explicita circulação, estrutura e fechamento. A combinação entre estrutura aparente, superfícies envidraçadas e passarelas metálicas reforça a leitura da casa como sistema de planos sobrepostos e conectados, mais do que como volume único e compacto.

Em síntese, a análise do projeto mostra que sua principal operação não está apenas na forma da casa, mas na reorganização do programa doméstico em contexto urbano denso. A obra substitui a lógica de maximização da área construída pela busca de jardim, luz e espaços de permanência ao ar livre, usando a estrutura e a legislação como instrumentos para essa redefinição. Com isso, a Casa de Fim de Semana em São Paulo pode ser lida como um projeto que reinterpreta a tipologia da residência de lazer a partir das condições da metrópole.


Referências bibliográficas

ANGÊLO BUCCI. Angelo Bucci. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Angelo_Bucci


KON, Nelson. Casa de fim de semana. NELSON KON. Disponível em: https://www.nelsonkon.com.br/casa-de-fim-de-semana/


SPBR ARQUITETOS. Casa de fim de semana. Galeria da Arquitetura. Disponível em: https://www.galeriadaarquitetura.com.br/projeto/spbr-arquitetos/casa-de-fim-de-semana/894. Acesso em: 22 mar. 2026.


SPBR ARQUITETOS. Casa de fim de semana. Vitruvius. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/14.160/5130


SPBR ARQUITETOS. Casa de fim de semana em São Paulo. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/758595/casa-de-fim-de-semana-em-sao-paulo-spbr


SPBR ARQUITETOS. Nelson Kon House in Ubatuba. Divisare. Disponível em: https://divisare.com/projects/223785-spbr-arquitetos-nelson-kon-house-in-ubatuba


SPBR ARQUITETOS. SPBR Arquitetos. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/office/spbr-arquitetos.


SPBR ARQUITETOS. SPBR Arquitetos. spbr arquitetos. Disponível em: https://spbr.arq.br/

Autores

Ana Luiza Nogueira de Carvalho

Laura Parreira Chequer

Marcelo Novato Souza Barros

Rafael Duarte


 
 
 

Comentários


© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page