spbr arquitetos
- ACR 113
- 8 de jun.
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Figura 01: Atuais membros do escritório, em sentido horário: Angelo Bucci, Lucas Roca e Mateus Evangelista. Fonte: spbr arquitetos
o escritório
O spbr arquitetos, fundado em 2003 e sediado em São Paulo, desenvolve projetos que têm como principais eixos a concepção estrutural, as soluções construtivas e a viabilidade econômica, aspectos que orientam diretamente o desenho arquitetônico do escritório. Sua produção abrange principalmente residências unifamiliares e multifamiliares de alto padrão, além de projetos institucionais como escolas, museus, bibliotecas, sedes corporativas e centros culturais. A linguagem arquitetônica do escritório é marcada pelo rigor estrutural, pelo uso recorrente do concreto aparente, pela valorização dos grandes vãos , edificações suspensas por poucos pilares, integração entre ambientes internos e externos por meio de vidro e pela relação direta entre estrutura, técnica e espacialidade.
Os projetos desenvolvidos pelo escritório evidenciam soluções arquitetônicas pautadas pela integração entre técnica construtiva e organização espacial. Tanto em residências quanto em edifícios institucionais, o spbr arquitetura explora a adaptação às condições específicas do terreno e do programa arquitetônico, utilizando estruturas metálicas, grandes planos de vidro, brises e sistemas construtivos que reforçam uma linguagem minimalista, austera e funcional, sem abrir mão da clareza formal e da eficiência técnica. Tem linguagem arquitetônica associada com a Escola Paulista, de linguagem próxima ao brutalismo e com utilização de materiais industrializados por causa da relação de seu sócio fundador com o ensino e arquitetos da FAU-USP.
O escritório é dirigido pelo arquiteto Angelo Bucci, natural de Orlândia (SP), formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em 1987. Concluiu seu mestrado em 1989 e doutorado em 2005, também pela USP. Em 2011, tornou-se Honorary Fellow do American Institute of Architects. Desde 2001, atua como professor da FAU-USP e, ao longo da carreira, foi professor visitante em diversas instituições internacionais de ensino superior. Desde 2022, ocupa a cadeira de Professor of the Practice no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge. Antes da fundação do spbr arquitetura, foi sócio fundador do escritório MMBB Arquitetos entre 1996 e 2002, associado com Paulo Mendes da Rocha e por isso há grande conexão entre a produção do spbr, MMBB e UNA Arquitetos.
O escritório já contou com uma longa lista de sócios e colaboradores ao longo de sua existência, em geral, formados pela USP, onde Bucci leciona desde 2001, mas atualmente, a equipe do escritório conta com Lucas Roca (1990) e Mateus Evangelista (1998), ambos formados pela FAU-USP em períodos distintos. Lucas formou-se em 2016, e trabalha com coordenação e desenvolvimento de projetos arquitetônicos, enquanto Mateus, formado em 2023, desenvolve desenhos e projetos técnicos para o escritório. Paralelamente à prática profissional, Angelo Bucci desenvolve intensa produção acadêmica e intelectual, publicando textos em periódicos e ministrando palestras, exposições e aulas. Parte desse acervo encontra-se disponível no site do spbr arquitetura, incluindo textos de crítica arquitetônica, história da arte, poesias e desenhos.
Projetos
2003 - Centro Cultural em São Lourenço da Serra, São Lourenço da Serra, SP - não executado
2004 - 2008 - Casa em Carapicuíba, Carapicuíba, SP

Figura 02: Casa Carapicuíba. Fonte: ArchDaily
2004 - Sede da Orquestra Filarmônica Afro-Brasileira, São Paulo, SP - não executado
2005 - Colégio Marista, Barra da Tijuca, RJ - não executado
2005 - Concurso Open House, Salvador, Bahia - não executado
2005 - Casa em Phoenix, Phoenix, Estados Unidos - não executado
2006 - Escola FDE Jardim Ataliba Leonel, São Paulo, SP

Figura 03: Escola FDE Jardim Ataliba. Fonte: spbr arquitetos
2006 - Museu de Arte de Lima (concurso), Lima, Peru - não executado
2006 - Midiateca PUC - Rio, Rio de Janeiro, RJ
2006 - Passarela de pedestres em Olten, Oltensteg, Suíça - não executado
2007 - 2008 - Casa em East Hampton, East Hampton, NY, Estados Unidos
2008 - Casa em Cotia, Cotia, SP - não executado
2008 - Quartel do Glicério, São Paulo, SP - não executado
2008 - Nova sede da CAF, Caracas, Venezuela - não executado
2008 - Casa em Portland, Portland, OR, Estado Unidos - não executado
2008 - Edifício de Apartamentos em Silves, Silves, Portugal

Figura 04: Edifício de apartamentos em Silves. Fonte: spbr arquitetos
2008 - Casa em Santa Tereza, Rio de Janeiro, RJ
2008 - Casa em Orlândia – Reforma, Orlândia, SP
2008 - Casa em Ubatuba, Ubatuba, SP
2009 - 2012 - Casa e salão de cabeleireiros em Orlândia, Orlândia, SP
2009 - Igreja da Natividade, Culiacan, México
2011 - Casa em Campinas, Campinas, SP
2011 - Jardim América, São Paulo, SP
2011 - Casa em Orlândia, Orlândia, SP
2011 - Instituto Moreira Salles, São Paulo, SP - não executado

Figura 05: Projeto não executado para o Instituto Moreira Salles. Fonte: spbr arquitetos
2011 - Edifício Sede Treetech Sistemas Digitais, Atibaia, SP
2012 - 2013 - Edifício de apartamentos em Lugano, Lugano, Suíça
2012 - Casa em Itaipava, Itaipava, RJ
2012 - Pavilhão administrativo em Santo Antônio dos Lopes, Santo Antônio dos Lopes, MA
2012-2013 - Vinícola em São José do Rio Preto, São José do Rio Preto, SP - não executado
2013 - 2014 - Casa de fim de semana em São Paulo, São Paulo, SP

Figura 06: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: spbr arquitetos
2013 - 2014 - Casa em Ubatuba II, Ubatuba, SP
2013 - 2014 - Casa em Santana do Parnaíba, Santana do Parnaíba, SP
2013 - Garagem em Murten, Murten, Suíça
2013 - Um novo MAM para São Paulo e o Parque do Ibirapuera no V Centenário, São Paulo, SP
2013 - Edifício de Apartamentos em Perdizes (Brisa), São Paulo, SP
2015 - Futura Unidade do IMPA (concurso), Rio de Janeiro, RJ
2015 - Arena Cultural do Hospital de Câncer de Barretos, Barretos, SP
2015 - Museu Bauhaus Dessau, Dessau, Alemanha

Figura 07: Museu Bauhaus Dessau. Fonte: spbr arquitetos
2015 - Residência de estudantes no Ourcq-Jaurès, Paris, França - não executado
2016 - 2017 - Casa em Sagaponack, Sagaponack, NY, Estados Unidos - não executado
2016 - 2019 - Hospital de Urgência em São Bernardo do Campo, São Bernardo do Campo, SP
2017 - 2018 - Casa na Serra da Canastra, Passos, MG
2017 - 2019 - Edifício de apartamentos em Moema, retrofit (Nomad), São Paulo, SP
2018 - 2019 - Casa No Jardim Europa, São Paulo, SP
2020 - Edifício de Apartamentos em Curitiba, Curitiba, PR - não executado
2022 - Edifício de apartamentos na Vila Olímpia (Float), São Paulo, SP

Figura 08: Edifício de apartamentos na Vila Olímpia. Fonte: spbr arquitetos
lista de premiações
2022
Prêmio IAB-SP 2022 Categoria Edificações - Residencial e Habitação de Interesse Social: FIRST PRIZE
Apartment Building in Vila Olimpia (FLOAT)
2021
Prêmio Obra do Ano 2021: FIRST PRIZE
Emergency Hospital in São Bernardo do Campo
2020
Oscar Niemeyer Award for Latin-American Architecture (3rd Edition): SECOND PRIZE
Emergency Hospital in São Bernardo do Campo
Paulista Association of Art Critics' Award (APCA): Best Architecture Work
Emergency Hospital in São Bernardo do Campo
iF Design Award 2020: Category: Product
DocolPlay Shower Spout
2019
Americas Property Awards
Best Residential Vertical Building, Apartment building in Vila Olímpia (Float)
Best Residential Retrofit, Apartment building in Moema (Nomad)
2016
Mies Crown Hall America's Prize: FINALIST 2014-2015
Weekend House in São Paulo
XX Bienal Panamericana de Arquitectura de Quito Weekend House in São Paulo
2014
Arquitetura e Construção Magazine Award / The best of architecture: Category: Urban house - less than 300 m2
Weekend House in São Paulo
IX BIAU - Bienal Iberoamericana de Arquitectura y Urbanismo
Weekend House in Sao Paulo
2010
Arquitetura e Construção Magazine Award / The bestof architecture: Category: Beach house
House in Ubatuba, Ubatuba, SP
2009
International Young Generation
XII Architecture International Biennial of Buenos Aires
2008
Arquitetura e Construção Magazine Award / The best of architecture: Category: Urban house
House in Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ
LafargeHolcim Awards for Sustainable Construction - Latin America: SECOND PRIZE
Media Library for PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ
2007
VIl Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo: HONORABLE MENTION
House in Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ
2006
FIRST PRIZE
Competition for the Media Library for PUC - Rio
2004
III CAUÊ Prize
House in Carapicuíba
Projetos Escolhidos para análise

Figura 09: Casa Ubatuba. Fonte: spbr arquitetos
CASA UBATUBA (2005 - 2008)
Projeto: Casa Ubatuba
Escritório: SPBR Arquitetos
Arquiteto responsável: Angelo Bucci
Localização: Praia do Tenório, Ubatuba, SP, Brasil
Ano do projeto: 2005–2006
Ano da obra: 2007–2008
Área do terreno: 887,50 m²
Área construída: 346,20 m²
Uso: Residência unifamiliar / casa de praia
Programa principal: garagem, piscina, solário, áreas sociais, áreas íntimas, espaço gourmet, academia e áreas de apoio
Estrutura: concreto armado aparente
Principais materiais: concreto, vidro, aço, madeira e elementos metálicos
Paisagismo: Raul Pereira
A Casa Ubatuba, situada na praia Tenório, foi desenvolvida em um terreno pé na areia de 55m x 16m, com declividade de 50% e cercado por vegetação natural da Mata Atlântica. Foi projetada para uma família, sendo que o casal moraria lá permanentemente enquanto os filhos visitariam como casa de férias. Esses fatores guiaram as soluções de projeto da edificação, propondo blocos internos de privacidade, conceito aberto para valorizar e aproveitar a vegetação e a vista, ao mesmo tempo que a protege, e um modelo diferente de “cabeça para baixo”.

Figura 10: Casa Ubatuba vista da praia. Fonte: Nelson Kon
A busca pela preservação da vegetação natural, além de seguir um padrão do escritório, fez com que os arquitetos projetassem tocar o solo o mínimo possível. Sendo assim, a residência é sustentada apenas por três colunas de concreto reforçadas.

Figura 11: Casa Ubatuba. Fonte: Nelson Kon

Figura 12: Implantação com os três pilares em evidência. Fonte: spbr arquitetos
A proposta inicial foi instalar um par de vigas longitudinais de aço sobre as colunas, para sustentar as lajes por cima, evitando o uso de estruturas de suporte e andaimes, tornando a obra mais rápida e racional. Durante a fase do projeto, o custo estimado das vigas superou o orçamento, levando a uma segunda proposta: alterar a ordem do processo, considerando toda a estrutura de concreto armado. Sendo assim, em vez de concretar a laje de cima para baixo, a concretagem foi feita de baixo para cima. Assim, os pórticos de apoio de toda a estrutura foram removidos de uma só vez.
O esquema construtivo permite certa liberdade de geometria das lajes e arranjo em níveis, possibilitando vistas para o mar de todos os cômodos da casa. O principal acesso da casa é feito de “cabeça para baixo”, ou seja, de forma invertida da organização tradicional: O acesso se dá pelo terraço, a área social abaixo dele e, em um nível mais baixo, a área íntima da casa. O terraço com a piscina e acessos para a casa está ao nível da rua e conectado a ela e a garagem por uma ponte descoberta.

Figura 13: Corte longitudinal. Fonte: spbr arquitetos

Figura 14: Terraço da casa Ubatuba. Fonte: Nelson Kon
A piscina foi posicionada no nível superior, do terraço, em cima de um dos três pilares devido à melhor insolação e à sua atuação como isolante térmico junto de espelhos d’água, que favorecem a integração do edifício à paisagem.

Figura 15: Planta do andar de acesso - Terraço. Fonte: spbr arquitetos
No andar social, um abaixo do acesso, a casa já começa a se organizar em 4 blocos diferentes. O primeiro, mais à esquerda logo abaixo da garagem é separado do edifício principal e tem acesso próprio e isolado possui dois banheiros então aparenta ser ou uma academia ou somente um vestiário para quem usa a piscina.
O segundo bloco tem uma área gourmet, e o terceiro tem cozinha, sala de jantar e de tv, enquanto no quarto bloco, mais perto da praia, tem uma varanda coberta.

Figura 16: Planta do andar social (-1). Fonte: spbr arquitetos

Figura 17: Terraço com piscina e logo abaixo vista do segundo bloco, com a área gourmet. Fonte: spbr arquitetos

Figura 18: Varanda com vista para a praia no andar social, parcialmente coberta pela laje. Fonte: spbr arquitetos
Já no andar íntimo, o segundo abaixo do acesso, a divisão dos blocos fica ainda mais clara, limitando o acesso entre eles principalmente para favorecer a privacidade do casal, já que a casa foi projetada para o uso cotidiano deles, e para uso como casa de férias para os filhos. Assim, os quartos estão inseridos em dois blocos completamente separados que não se comunicam entre si. (O bloco da direita é do casal, o do meio para os filhos, e o da esquerda tem um “mini apartamento” completo, então deve ser aposento para hóspedes ou empregada. Com essa compartimentação dos blocos, o acesso para a praia fica restrito aos blocos dos filhos e o de empregado por meio da escada em espiral.

Figura 19: Planta do andar íntimo (-2). Fonte: spbr arquitetos
O quarto localizado no extremo leste (do casal), mais próximo do mar, foi protegido com uma veneziana móvel de madeira. O outro grupo, de três quartos (para os filhos), está situado atrás deste, mas com desnível de um metro e meio para baixo, também possibilitando a vista para o mar.

Figura 20: Vista do quarto do casal sem a veneziana. Fonte: spbr arquitetos

Figura 21: Detalhe das venezianas do bloco da varanda e do quarto casal. Fonte: spbr arquitetos

Figura 22: Escada helicoidal que conecta os blocos da esquerda e desce para o solo. Fonte: spbr arquitetos
O projeto da casa, além de buscar preservar a paisagem em que está inserida, cria a sensação de que os ambientes estão flutuando no espaço entre as árvores e de cada um deles à vista se abre para a paisagem. É possível perceber por meio das fotos como os materiais contribuem para essa sensação e também as áreas de circulação, que são todas externas aos blocos, criando um projeto único e cheio de significado.

Figura 23: Circulações externas. Fonte: spbr arquitetos

Figura 24: Vista da Casa Ubatuba inserida na paisagem. Fonte: spbr arquitetos
CASA DE FIM DE SEMANA EM SÃO PAULO (2010 - 2014)

Figura 25: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: ArchDaily
Projeto: Casa de Fim de Semana em São Paulo
Escritório: SPBR Arquitetos
Arquiteto responsável: Angelo Bucci
Localização: São Paulo, SP, Brasil
Ano do projeto: 2013–2014
Área do terreno: 269,5 m²
Área construída: 183,4 m²
Uso: Residência de lazer / casa de fim de semana
Programa principal: jardim, piscina, solário, quarto, áreas de apoio e apartamento do caseiro
Estrutura: concreto armado aparente
Principais materiais: concreto, vidro, aço e elementos metálicos
Paisagismo: Raul Pereira
A Casa de Fim de Semana em São Paulo, projetada pelo SPBR Arquitetos, parte de um programa pouco usual: criar uma residência de lazer dentro da própria capital paulista. O projeto foi concluído em 2013, tem cerca de 183 m² de área construída em um terreno de aproximadamente 269 m², e foi desenvolvido a partir da decisão dos proprietários de permanecer na cidade aos fins de semana, evitando os deslocamentos para o litoral e o trânsito associado a esse movimento.

Figura 26: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: Nelson Kon
Esse dado inicial é importante porque define o partido. Em vez de pensar a casa de fim de semana como equipamento de evasão territorial, o projeto a formula como uma alternativa de uso da própria metrópole. A implantação em área central, entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima e o eixo de infraestrutura do Rio Pinheiros, além da presença da rota aérea sobre o lote, mostra que o projeto não tenta se afastar das condições urbanas, ele opera a partir delas.
A organização programática confirma essa mudança de lógica. Segundo a descrição do projeto, os elementos principais são piscina, solário e jardim; os ambientes fechados aparecem como complementares, reunindo um quarto, um pequeno apartamento para o caseiro e um espaço para cozinhar e receber amigos. Em termos de análise, isso significa que a casa desloca a hierarquia tradicional da residência urbana: o morar fechado deixa de ser o centro absoluto, e o lazer ao ar livre passa a estruturar a composição.
A casa se organiza verticalmente em três níveis principais, cada um com uma função específica dentro do programa. Essa divisão reforça a ideia de que o projeto não se estrutura como uma residência convencional, mas como uma sobreposição de áreas abertas, espaços de apoio e lazer.
No nível térreo, o solo é mantido majoritariamente livre para abrigar o jardim e as áreas externas. Esse pavimento funciona como uma base aberta da casa, com presença de áreas verdes, água e circulação. A liberação do térreo permite ampliar a área ajardinada do lote e cria uma primeira camada de contato com o solo, mais sombreada e protegida pelo volume superior.

Figura 27: Planta dos níveis 0 e +1,40. Fonte: ArchDaily
O nível intermediário concentra os ambientes fechados do programa. Nele estão localizados o quarto, os espaços de apoio e o “apartamento” do caseiro. Esse pavimento funciona como uma faixa habitável suspensa, posicionada entre o jardim e a cobertura. A organização alongada acompanha o formato estreito do terreno e distribui os ambientes de forma linear.

Figura 28: Planta do nível +2,80. Fonte: ArchDaily
Na cobertura, estão a piscina de raia e o solário, que constituem os principais espaços de uso da casa. A decisão de levar a piscina para o nível superior responde à necessidade de garantir maior insolação, já que o entorno construído poderia sombrear o térreo. Assim, a cobertura passa a funcionar como uma espécie de novo térreo elevado, destinado à permanência, ao lazer e à relação com a paisagem urbana.

Figura 29: Planta dos níveis +5,60 e +6,475 (solário e piscina). Fonte: ArchDaily
O acesso entre os níveis acontece por meio de escadas e passarelas que conectam as diferentes camadas do projeto. A circulação não é apenas funcional: ela organiza a experiência da casa, conduzindo o usuário do jardim térreo aos espaços fechados intermediários e, depois, ao plano superior da piscina. Dessa forma, o percurso vertical evidencia a lógica do projeto: sair do nível mais protegido e ajardinado, passar pelo pavimento habitável e chegar ao ponto mais aberto, iluminado e exposto da casa.

Figura 30: Casa de fim de semana em São Paulo, circulação externa. Fonte: Nelson Kon
A questão da legislação urbana tem papel decisivo nessa definição espacial. Como a altura máxima permitida na região era de seis metros, o projeto transforma esse limite em critério de organização: o plano situado nessa cota passa a ser tratado como um novo nível principal, já que recebe melhor insolação. A solução não decorre apenas de uma escolha formal, mas de uma leitura das restrições do lote e da necessidade de garantir uso efetivo dos espaços abertos.
A piscina elevada é central nessa operação. A hipótese inicial de uma piscina térrea foi abandonada porque as construções vizinhas limitavam a incidência solar. Ao suspendê-la, o projeto resolve a questão da insolação e, ao mesmo tempo, libera o solo para o jardim. A cobertura deixa então de ser apenas fechamento superior da casa e passa a concentrar o principal espaço de permanência.

Figura 31: Corte longitudinal. Fonte: ArchDaily

Figura 32: Vista do nível superior. Fonte: Nelson Kon
Do ponto de vista estrutural, o projeto organiza piscina e solário como volumes paralelos. Entre eles, dois pilares são posicionados no vão intermediário, e a piscina funciona como contrapeso do solário. A casa apresenta um vão de 12 metros entre os apoios principais, com vigas que suportam tanto a piscina quanto o solário e ainda penduram o piso inferior. A estrutura, portanto, não aparece apenas como solução técnica, mas como instrumento que torna viável a inversão programática proposta pelo projeto.

Figura 33: Corte transversal da casa. Fonte: ArchDaily
A liberação do térreo é outro aspecto relevante. Ao manter o nível do solo sem construção, o projeto maximiza a área ajardinada e organiza a casa em três camadas: jardim no térreo, apartamento no nível intermediário e piscina na cobertura. Essa estratificação produz uma separação funcional clara entre apoio, habitação e lazer, além de estabelecer diferentes relações com luz, ventilação e vistas.

Figura 34: Corte longitudinal com destaque para as piscinas e espelhos d'água. Fonte: ArchDaily
Existe também uma leitura urbana importante na maneira como o projeto se relaciona com o entorno. A piscina de raia, com 17 metros, é orientada no sentido da rota dos aviões que sobrevoam a área. Isso mostra que a cobertura não é pensada como espaço isolado da cidade, mas como ponto de observação inserido na paisagem metropolitana, em contato com infraestrutura, fluxos e ruídos urbanos.
O paisagismo, assinado por Raul Pereira, contribui para ampliar essa organização em níveis. A casa possui um circuito de águas interligado pelos andares e a presença de três extratos vegetais: no térreo, um sub-bosque de Mata Atlântica; em outro nível, horta e trepadeiras; na cobertura, palmeiras e vegetação associada à abertura visual da paisagem urbana. Assim, o jardim não funciona como preenchimento residual, mas como componente espacial articulado à distribuição vertical da casa.

Figura 35: Casa de fim de semana em São Paulo. Fonte: ArchDaily
Materialmente, o projeto trabalha com concreto, aço, vidro e elementos metálicos nas escadas, passarelas e guarda-corpos. Esses materiais aparecem vinculados à clareza construtiva da obra e ao modo como ela explicita circulação, estrutura e fechamento. A combinação entre estrutura aparente, superfícies envidraçadas e passarelas metálicas reforça a leitura da casa como sistema de planos sobrepostos e conectados, mais do que como volume único e compacto.
Em síntese, a análise do projeto mostra que sua principal operação não está apenas na forma da casa, mas na reorganização do programa doméstico em contexto urbano denso. A obra substitui a lógica de maximização da área construída pela busca de jardim, luz e espaços de permanência ao ar livre, usando a estrutura e a legislação como instrumentos para essa redefinição. Com isso, a Casa de Fim de Semana em São Paulo pode ser lida como um projeto que reinterpreta a tipologia da residência de lazer a partir das condições da metrópole.
Referências bibliográficas
ANGÊLO BUCCI. Angelo Bucci. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Angelo_Bucci.
KON, Nelson. Casa de fim de semana. NELSON KON. Disponível em: https://www.nelsonkon.com.br/casa-de-fim-de-semana/.
SPBR ARQUITETOS. Casa de fim de semana. Galeria da Arquitetura. Disponível em: https://www.galeriadaarquitetura.com.br/projeto/spbr-arquitetos/casa-de-fim-de-semana/894. Acesso em: 22 mar. 2026.
SPBR ARQUITETOS. Casa de fim de semana. Vitruvius. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/14.160/5130.
SPBR ARQUITETOS. Casa de fim de semana em São Paulo. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/758595/casa-de-fim-de-semana-em-sao-paulo-spbr.
SPBR ARQUITETOS. Nelson Kon House in Ubatuba. Divisare. Disponível em: https://divisare.com/projects/223785-spbr-arquitetos-nelson-kon-house-in-ubatuba.
SPBR ARQUITETOS. SPBR Arquitetos. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/office/spbr-arquitetos.
SPBR ARQUITETOS. SPBR Arquitetos. spbr arquitetos. Disponível em: https://spbr.arq.br/.
Autores
Ana Luiza Nogueira de Carvalho
Laura Parreira Chequer
Marcelo Novato Souza Barros
Rafael Duarte




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